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Balanço das conquistas de nossos direitos em 2006
Entrevista com a advogada Sylvia Mendonça do Amaral

 

Nossa entrevistada para falar sobre os avanços nos direitos homossexuais no Brasil, em 2006, é a advogada Sylvia Mendonça do Amaral, especialista em Direito de Família e Sucessões do escritório Mendonça do Amaral Advocacia, autora do livro “Manual Prático dos Direitos de Homossexuais e Transexuais” e editora do site Amor Legal.

UOO:
Primeiro, fale-nos sobre desde quando atua na área de direitos homossexuais e o que a motivou a fazê-lo. 

Sylvia: Trabalho na área de Família e Sucessões há 20 anos e há 05 passei a me dedicar, também, ao estudo dos direitos de homossexuais já que os vejo intimamente relacionados ao Direito de Família. O que me motivou a fazê-lo foi uma consulta que recebi de um amigo homossexual que enfrentava um sério problema decorrente da separação com o seu parceiro. Surgiu assim a necessidade de conhecer o assunto e depois o profundo interesse de conhecer mais sobre o assunto e atuar em uma área tão polêmica.

UOO: Segundo, fazendo um balanço das conquistas dos direitos LGBT no Brasil, em 2006, parece que há bastante a comemorar. Por exemplo, na questão do avanço no reconhecimento das uniões estáveis. Fale um pouco sobre isso. 

Sylvia: Em se tratando de direitos de homossexuais qualquer vitória é considerada uma grande conquista. E em 2006 pudemos ver os maiores avanços. Alguns tribunais de justiça de diferentes estados reconheceram a possibilidade de haver uma união estável entre duas pessoas do mesmo sexo, o que não prevê nossa legislação. Ao contrário: nossas leis falam em casamento e união estável onde é imprescindível a diversidade de sexos – um homem e uma mulher. A partir do momento em que se reconhece a união estável entre duas pessoas do mesmo sexo, surgem possibilidades de conquista de alguns direitos: partilha de bens na separação, participação na herança do parceiro falecido, possibilidade de recebimento de pensão, início de prova para se pleitear o visto permanente de companheiro estrangeiro para residir no Brasil e uma série de outras conquistas. Um grande avanço ocorreu com a possibilidade de adoção de criança e adolescente por casais homossexuais. Isso deveu-se ao fato de o casal homossexual ter provado viver em união estável, atendendo assim mais uma das exigências que são feitas para adoção.  

UOO: Recentemente foi aprovado projeto da deputada Laura Carneiro (PFL-RJ,  que institui o contrato de união entre pessoas do mesmo sexo, onde casais LGBT poderão constituir união homoafetiva por meio de contrato que disponha sobre suas relações patrimoniais. Ativistas LGBT dizem que esse projeto não reconhece a união homossexual como da área de Família, mantendo-a como uma sociedade de fato simplesmente. Qual sua opinião? 

Sylvia: O projeto de lei de autoria da Deputada Laura Carneiro foi aprovado pela Comissão da Seguridade Social e Família. É um passo do longo caminho até que o projeto de lei seja definitivamente aprovado e sancionado tornando-se uma lei vigente. É certo que qualquer passo como esse é considerado uma vitória do segmento, mas, de fato, não concordo com as alterações a serem feitas conforme proposição da Deputada. Acho louvável o seu trabalho. Não posso deixar de elogiar tamanha ânsia por justiça. A primeira das alterações propostas faz inserir um capítulo no título que trata das várias espécies de contrato do atual Código Civil. Esse título e o capítulo sugerido pela Deputada fazem parte do Livro 1 que trata dos direitos das obrigações. É uma parte de nosso código voltada para contratos comerciais e seria inserido aí um capítulo tratando dos contratos a serem firmados entre casais homossexuais versando sobre questões patrimoniais, como se isso fosse um contrato comercial. A outra sugestão, bem mais acertada, é a de se incluir parágrafo no artigo que trata da sucessão, estabelecendo que o mesmo valeria para casais homossexuais (podem ser herdeiros um do outro). Nesse aspecto o projeto andou bem. Mas creio que o ideal seria transpor todas as alterações para a parte do Código que trata da união estável. O ideal é que os casais homossexuais possam estabelecer uniões estáveis, equiparando-os definitivamente aos casais homossexuais. Não concordo com a idéia de inserir um contrato feito entre duas pessoas do mesmo sexo que abrange laços de afeto e amor, no texto que trata dos diversos contratos “comerciais”. Tudo deve ser tratado juntamente com os dispositivos que falam de união estável. É preciso que os contratos firmados entre duas pessoas do mesmo sexo, tratando de seu patrimônio e outras tantas disposições necessárias, como por exemplo, o pagamento de pensão de um para o outro no caso de ruptura do relacionamento, sejam tidos como contratos de união estável para que, dessa forma, operem-se em relação a tais contratos e a tais casais homossexuais o mesmo que ocorre com os heterossexuais. Concordo com os ativistas: tudo deve ser tratado na parte de nosso código civil que fala sobre o Direito de Família.  

UOO: O projeto da Marta Suplicy mofa na gaveta há mais de uma década, estando completamente defasado. Propõe-se atualiza-lo ou criar um novo projeto com base nos projetos já existentes. Na sua opinião, qual o melhor caminho a percorrer?

Sylvia: Existe um grupo organizado, com mais de 40 profissionais ligados à área dos direitos de homossexuais envolvidos e estudando as principais alterações que devem ser feitas no projeto da Marta Suplicy, com o que ela mesma concorda por entender o projeto apresentado em 1995 merecedor de reparos. Entendo que esse caminho “escolhido” pelo organizador desse grupo de estudos é correto. Mas alterar o projeto engavetado é uma das possibilidades de solucionar a questão. Mas, seguramente outros projetos surgirão (como de fato já surgiram alguns) onde talvez o texto esteja mais adequado a nossa realidade e tramite mais rapidamente até a aprovação final.

UOO: Se aprovados, esses projetos alterariam o código civil ampliando o conceito de união estável, para além do casal homem e mulher, ou se configurariam como lei específica? 

Sylvia: A idéia desses projetos é alterar o Código Civil, inserindo artigos e alterando alguns já existentes, ou alterar leis específicas, como a lei de registros públicos, dos servidores públicos, do estatuto do estrangeiro dentre outros. 

UOO: Na prática, hoje, as declarações de união estável que vêm sendo reconhecidas pela Justiça possibilitam o quê? Recebemos inúmeras perguntas sobre a declaração, por exemplo, além de inserção de companheira em convênio médico, INSS, se também serve para possibilitar a compra de móveis e imóveis em comum, etc... Pode nos citar algumas das possibilidades? 

Sylvia: As uniões formadas por duas pessoas do mesmo sexo só são aceitas por uma minoria dos julgadores. Porém, obtido o reconhecimento é possível praticar alguns atos, com maior facilidade (praticamente todos os atos estão elencados na resposta 02).

UOO: Casais de mulheres e homens homossexuais também conseguiram adotar crianças em nome de ambos as/os parceiros. Agora, em 02/01, a Comissão da Câmara aprovou relatório que altera a legislação atual sobre adoção incluindo a adoção homossexual. Como vê esses avanços e o que aconselha aos casais que querem adotar uma criança agora? 

Sylvia: Trata-se apenas da aprovação de um relatório, o que está bem distante da aprovação de um projeto de lei. De qualquer forma, o fato de pelo menos três casais homossexuais já terem obtido a autorização para adoção, abre caminho para que outros casais habilitem-se como adotantes e venham a alcançar esse direito. Via de regra, os homossexuais optam pela adoção feita por apenas um dos parceiros, o que torna mais fácil o deferimento do pedido. Mas os casais que pretendem mesmo assim lutar pelo direito de adotar devem seguir o mesmo procedimento de todos os casais homo e heterossexuais: dirigir-se a uma vara da infância e da Juventude e se cadastrarem como adotantes, iniciando assim todo o processo indispensável. Aconselho que façam uma escritura declarando a existência de uma união entre eles, pois isso certamente terá que ser comprovado no momento da habilitação para adoção e será um documento a mais a dar suporte ao pedido.

UOO: O projeto contra Homofobia foi aprovado na Câmara Federal, ruma para o Senado. Alguns críticos afirmam que ele estabelece privilégios para pessoas homossexuais em vez de simplesmente combater o preconceito. Você concorda com isso? 

Sylvia: Infelizmente tenho que dizer que entendo que o preconceito só será banido de nossa sociedade com a imposição de penas para os ofensores. Não vejo privilégios para os homossexuais. Vejo como a forma encontrada para se conceder ao segmento o direito de ser respeitado e isso, no nosso país, só é possível com a punição. E mesmo assim tenho as minhas dúvidas, já que o que vemos no Brasil é a vitória esmagadora da impunidade.

UOO: Quais as principais conquistas trazidas por esse projeto?

Sylvia: Fazer valer direitos constitucionalmente garantidos a todos os cidadãos. Inexplicavelmente existem artigos na nossa lei maior que não são aplicados a todos os cidadãos indistintamente, conforme estabelece expressamente o seu texto. Todos são iguais perante a lei. Vemos isso na prática, em relação aos homossexuais? Todos têm direito à dignidade, privacidade. Vemos isso? Então, resta-nos aprovar uma lei onde todos esses direitos constitucionalmente garantidos façam-se valer, mesmo que através de punições.

UOO: Por fim, agradecendo pela entrevista, o que se espera em termos de direitos homossexuais para 2007?

Sylvia: Com certeza veremos algumas vitórias do segmento GLBT. Nunca se falou tanto sobre isso. Nunca vimos na imprensa tantas notícias e matérias sobre os direitos de homossexuais, seja aqui seja em outros países. Isso, sem dúvida contribui para que a sociedade passe a aceitar a questão com mais facilidade, na medida em que se fala disso com mais freqüência e maior naturalidade. Isso ajuda a minimizar o preconceito e daí propiciar o surgimento de novas conquistas. Acho que 2007 será um ano de mais novidades e vitórias, pois isso é o que vem acontecendo dia após dia no mundo inteiro.

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