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Herdeiras de Safo: Fazendo Poesia
 
Poesias meio Prosas
 

Teu olhar

 

Gosto do teu jeito

de me olhar,

perturba,

desequilibra,

põe dúvidas no ar.

O teu olhar

tem o efeito

de um grande temporal:

vibra,

balança,

estremece,

derruba armadilhas

de todo não,

faz bem,

faz mal,

produz maravilhas,

faz sonhar,

tem os raios do pecado
e do perdão.

Ivone Boechat




Essas coisas da carne


Essas coisas da carne
atingem o coração,
não aquela válvula
que bombeia sangue,
mas sim o músculo
do sentimento que se contrai,
que se expande, que se estira
até romper de paixão.

Essas coisas da carne
impregnam a alma
que encarnada
busca seu sexo
como a uma hóstia,
como a um cálice de vinho
que transborda e inunda
o rosto de lágrimas,
esse sal da saudade,
que só a chuva disfarça.

Essas coisas da carne
provam  que as razões do coração
a razão realmente desconhece,
que o corpo da alma não esquece
porque tatua na pele a sua pele,
o seu cheiro, a sua voz, os seus gestos,
e essa imagem vale muito mais
do que as mil palavras
com que nos desentendemos.
 

Míriam Martinho

 

Travessia

 

Não tanto o que eu digo

mas minha montagem.

Não tanto o trigo

mas a aragem.

A fragrância esquecida

A vida que passou

enquanto não nos víamos

e deixou estas marcas,

aqui, e aqui, e aqui...

Para o seu beijo

agora.

Rita Moreira

 



Conversa Rasgada
 


O que fazer para o sono delicado chegar sem que tua deliciosa presença me roube o sossego.

Dedilhar no escuro do quarto cada pedaço de teu corpo, simples assim, minhas mãos sobre a tua pele...  Redobrar a atenção na fissura, ela vem do teu cheiro povoando minhas narinas...


Solene teu sorriso maroto e safado aponta teu rosto, que balançando suave de um lado para o outro põe a mostra o alvo de teu pescoço indecente a me provocar a idéia na saliva.
 

Minha boca percorre cada centímetro de tuas costas, tua voz em meu cérebro, o que posso eu diante de tamanha invasão...
 

Conversa rasgada lavrada no roliço de tuas pernas, um desejo imenso de te pegar de jeito...
 

Descobrir tuas flores, camisa entreaberta, calças soltas, você vindo inteira em mim. Num abraço, numa forma descontraída do dia, agarrar teus cabelos, desfazer teu penteado, e sem vergonha encostar minhas coxas nas tuas, esfregar minha barriga em tuas nádegas. Sorver em tua boca o doce veneno que guardas para os desavisados que chegam apressados!
 

Meu coração revira no peito! E agora, já, urge teus braços nos meus, teus seios em minhas mãos, teu umbigo todo em impressão, registro de teu nascimento, deleite da minha língua...
 

Mas o que é isso... Você com seus olhos imensos... Lábios macios... Um tempo inteiro entre sussurros e risos. Tua conversa rasgada em mim.


Conversa rasgada, do meu desejo comigo mesma, relatando às minhas entrelinhas que estou numa vontade imensa em acordar colada em tua nudez no meio de minhas pernas, por entre meu abraço, soltas entre os lençóis!
 

Andréa Haddad

 

Anima Animus
Míriam Martinho

Mora em mim
Um menino tímido,
Um malandro sacana,
Um Brad Pitt sem fama
Que quer na cama
Uma mulher de seios à espreita,
Numa camisola branca,
De dedos frágeis, boca rubra,
De pernas longas entreabertas,
Com uma vulva ávida e agridoce,
Com seu mar negro onde mergulho fundo
Como quem não quer mais voltar para esse mundo
Onde tudo me atordoa.

Revista Um Outro Olhar, n. 33., ano 33


Poema Eqüestre
Míriam Martinho

Gosto de montar essa égua,
botar-lhe o cabresto,
meter-lhe as esporas,
puxar-lhe a crina,

enquanto ela empina,
corcoveja, relincha,

resfolega, se entrega,
e me mata de prazer.



Allumeuse
rita-moreira

Na cerração do pileque
da profusão das madeixas
foi semi-abrindo seu leque-
sutil elenco de deixas
suaves toques de moça
gentis sorrisos de gueixa
proezas de bibelô!

Bailarininha de louça,
deu um pulinho e quebrou.

De Perscrutando o Papaia
(Ed. Brasiliense, 1999)


Duas mulheres no outono
Rosária 

Sobre o teu corpo desnudo a dormir
a carícia do meu olhar.
Na penumbra do quarto a tímida claridade
da manhã ousa entrar.
Pela janela o perfume das violetas do jardim
se faz presente.
É outono lá fora. Quente. Outono em nossas vidas.
Bonito ainda é teu corpo adormecido
ao meu enlaçado.
Em paz dormes o sono de mulher amada.
Em paz acordo para viver o encanto de te amar.



Crepúsculo
Sonia Pallone

"...Entre a tarde e a noite
Procuro a paz daqueles caminhos
Nos momentos em que cigarras invisíveis
Sussurram o mesmo canto...
Velhas encostas úmidas, em ruínas
Invadidas de folhas sensíveis ao vento
Fazem-me parar e apreciar o belo triste
O belo deteriorado pelo tempo
Infalível e cruel.
Sem os meus passos
Ouço o silêncio se movendo.
Só meu corpo perturba esta serenidade...
Só meu pensamento é a prova
De que eu ainda existo..."  


Solidão
Sonia Pallone
O mistério dela oculta minha própria sombra para não deixar vestígios.

Entre você e eu
Sonia Pallone
"...Existe um elo. Versos que unem sua ansiedade à minha.


http://solidaodealma.blig.ig.com.br/


Foi assim 
Zuleima Sá

Foi assim...
que nesta madrugada.
te possuí por inteira.


Foi assim
que saboreei teu gosto.
e toquei tuas entranhas.


Foi assim
que te vi em êxtase.
Foi por esses teus caminhos
que mãos e boca navegaram


Foi assim
que teu perfume me embriagou,
que teus gemidos me enlouqueceram.


Foi assim,
que
na audácia das minhas mãos,
no despudor da minha boca
senti...
a loucura do teu prazer.

E, foi então...
que de teu corpo fiz garupa
de teus braços rédeas
e voei...oh! céus...na loucura do meu prazer.


Sabes o que é amar
?
Laura M. L. Almeida

Olhos brilhantes
Pele avermelhada
Aquecida
Sorriso publicado.

Pensamento longe
A alma em paz
Sono sereno
Sonho querido

Boca úmida
Pêlos eriçados
Membros sonolentos
Saúde

(São Paulo/SP)

 

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