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VERA, o filme
Rosely Roth 

 

Domingo, 24 de maio, final de tarde, frio intenso. Eu e minhas companheiras do GALF fomos ao Art Palácio, cinema tradicional da “Boca”, assistir o filme Vera, de Sérgio Toledo, que estreara 30 de abril, em São Paulo. Havia bastante expectativa em relação ao filme, pois as críticas que li, elogiavam o roteiro, a fotografia, a música, a atuação dos atores e, principalmente, o desempenho de Ana Beatriz Nogueira, como Vera

No Festival Internacional do Rio de Janeiro (Fest-Rio) realizado no ano passado, Vera ganhou o prêmio da crítica, como melhor filme nacional. Neste mesmo ano, 1986, no Festival de Brasília, o filme ganhou três prêmios: o de melhor trilha sonora e melhor atriz. No último festival de Berlim, em 1987, Ana Beatriz Nogueira, concorrendo com atrizes como Anne Bancroft e Sissy Spaceck, também ganhou o Urso de prata  de prêmio como melhor atriz. “Antes deste filme, Ana beatriz Nogueira havia trabalhado apenas em teatro. Depois de Vera, viveu Teca, na novela Mania de Querer, da Rede Manchete, e há pouco, terminou um curta metragem da cineasta carioca Sandra Werneck, onde representa uma menina que se prostitui aos 16 anos (Estado de São Paulo, de 30/04/87).” A fotografia foi feita por Rodolfo Sanches que realizou, entre outros filmes, Pixote e o Beijo da Mulher Aranha. O trabalho de cenografia ficou a cargo de Naum Alves de Souza, a produção de som coube a José Luis Sasso e a trilha sonora foi composta por Arrigo Barnabé. Ao contrário do que ocorre na grande maioria dos filmes “pátrios”, o som é algo e nítido. A fotografia, os cenários, a música e a interpretação dos atores integram um todo harmonioso, que resultou num trabalho muito bem feito. Todos os atores representam bem, não caindo em artificialismos caricaturais. Destaco, especialmente, a atuação de Ana Beatriz Nogueira, como Vera. Uma boa atriz, ou um bom ator, é aquele que não parece estar representando, sendo sua atuação tão espontânea que nos dá a sensação de ter incorporado o espírito do personagem. O bom ator, portanto, é aquele que, sabendo captar a alma, os gestos, os vários aspectos do personagem, concretiza-o, integralmente, em seu próprio corpo.

 Como já dizia o conhecido verso de Fernando Pessoa “o poeta (a ator) é um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente (o parêntese é meu).” Comparo a atuação de Ana Beatriz Nogueira com a de William Hurt em O Beijo da Mulher Aranha. Nada parece artificial e/ou caricatural na sua representação da personagem Vera.

 Sérgio Toledo, antes de Vera, dirigiu em 1978, com Roberto Gervitz, o longa-metragem Braços Cruzados, Máquinas Paradas. Sendo um dos principais documentários da década de 70, o filme aborda a questão das greves e do movimento operário no auge da mobilização do ABC (O Estado de São Paulo, 30/4/87). Vera é considerado o primeiro trabalho de ficção de Sérgio Toledo, segundo o jornal o Estado de São Paulo, em reportagem realizada no dia da estréia do filme, em São Paulo. Nesta reportagem, o diretor mencionou ser Vera, o resultado de um ano e meio de pesquisa feita em unidades da Febem, hospitais psiquiátricos e boates”.

A História

Vera focaliza a história de um indivíduo que é biologicamente mulher, mas não se sente como tal, Vera, o personagem se pensa e se sente como pertencente ao sexo masculino ou o que se convencionou chamar como tal adotando o nome de Bauer. Colocada na FEBEM por sua prima, lá aprende a ser “machona” adotando um dos dois papéis possíveis naquela instituição: só se podia ser “machona” ou “mulher”. Também será na FEBEM que Vera transará com uma mulher, o que, somado ao fato de ser “machona”, parece ter se constituído em fator determinante para sua auto-imagem, como homem. Na história de Vera há ainda um professor, representado pelo ator Raul Cortez, que a ajuda a sair da FEBEM e assume sua tutela, arrumando-lhe emprego em uma biblioteca, auxiliando-a economicamente e, principalmente, sendo seu confidente, o amigo indispensável para segurar as inúmeras “barras”.

Tema Central

O filme tem como tema central o conflito pessoal e social de um indivíduo que com um corpo de mulher se autopercebe enquanto homem e gostaria profundamente de tornar-se um. Um dos aspectos positivos do filme é que o seu diretor, Sérgio Toledo, conseguiu abordar a situação de Vera de maneira não-moralista, o que é, a meu ver, uma das principais dificuldades na abordagem de temas desta espécie, como o do transexualismo. Há certo distanciamento do diretor, no sentido de não assumir um juízo de valor quanto ao conflito vivido por Vera-Bauer. Este conflito é transmitido ao expectador através de uma perfeita concatenação entre a fotografia, o cenário, a atuação dos atores e a música, tudo contribuindo para apresentar a experiência de angústia e desespero vivenciada por Vera.

Este distanciamento de que falo não tem nada a ver com falta de sensibilidade ou de emoção. Achei interessante o procedimento adotado de usar “flash-backs” para reconstituir a história do conflito da personagem central. Há uma combinação constante de presente e passado no decorrer do filme. A medida que a história se desenrola vai adquirindo maior profundidade e densidade, por meio dos flash-backs, o que possibilita ampliar a compreensão do conflito. Exemplo disto é uma cena onde já fora da FEBEM, Vera e outra funcionária da biblioteca onde trabalha (e que viria a ser sua companheira) visitam uma exposição sobre torturas e se detêm mais demoradamente na observação da escultura de um homem com mãos e pernas amarradas e com expressão de desespero e angústia no rosto.

Para mim, aquela escultura simboliza a situação de Vera, no emprego da biblioteca, tendo que se adaptar, não aceitando provocações, como recomendava o professor, não dando margem para que o preconceito silencioso de seus colegas de trabalho se tornasse claramente manifesto. A escultura expressa o estado de Vera, seu sentimento integral de ser aquele homem, de mãos e pés amarrados, pois, em um corpo de mulher e se identificando integralmente como homem, Vera está no ponto de intersecção entre os sexos, nem integralmente homem nem integralmente mulher, portanto, socialmente em uma realidade de tortura por encontrar-se rompendo os modelos de masculino e feminino. O fato de ser diferente a deixava exposta às atitudes de violência social dirigidas aos indivíduos que transgridem a ordem dos valores dominantes. Vera era um alvo. A angústia e o desespero no rosto da escultura, espelhavam o sofrimento de Vera diante de uma situação aparentemente sem perspectivas de solução.

Apesar de Vera Bauer se sentir atraída por mulheres, seu conflito a impossibilita de desenvolver uma relação lésbica. Vera tem medo de se desnudar perante a amada. A nudez lhe constrange, pois reafirma sua condição biológica de mulher. Sua companheira quer sentir e tocar Vera. Sua intenção é viver uma relação afetiva e sexual com outra mulher, mas Vera se identifica com os valores masculinos. Por exemplo, Vera intima a companheira a não conversar com nenhuma pessoa que ela, Vera, não conhecesse. Tentando amar Vera, mas encontrando Bauer, a companheira vai acabar rompendo a relação, sintetizando numa frase sua visão do assunto: “O problema, Vera, é que você quer ser igualzinha a um homem”. Neste instante, houve um dos raros momentos de silêncio total no cinema. Emudeceram-se os risos e comentários pejorativos dos homens bem como seus arrotos, manifestações típicas da virilidade popular-proletária, presentes durante a maior parte da projeção.

 A meu ver, para Vera, apesar de seu corpo de mulher, o que ocorria entre ela e sua companheira era uma relação heterossexual. Algumas mulheres lésbicas não gostaram do filme. A argumentação principal é de que a história referenda a imagem da mulher lésbica enquanto a da mulher que quer ser homem. Há, em muitos textos literários e científicos, esta associação entre mulher lésbica e desejo de ser homem. Ocorre também freqüentemente a associação de que quanto mais masculina for a mulher, maior é o seu desejo de ser homem. Para algumas mulheres com quem conversei – como já disse – o filme reafirma essa visão. Sem dúvida, Vera retrata uma situação que parece comum a algumas mulheres lésbicas, mas em nenhum momento senti a tentativa de se fazer qualquer generalização. Talvez o que muitas mulheres lésbicas desejem é um filme sobre lesbianismo que apresente imagens positivas das mulheres lésbicas, imagens fora dos estereótipos sociais existentes e, provavelmente, com final feliz (e por que não?). É um anseio justo do qual também compartilho. Todavia, estes desejos de encontrar um filme que aborde as vivências lésbicas de forma não mistificada e estereotipada não devem nos cegar para os méritos de Vera, inclusive porque, ainda hoje, há mulheres que compartilham um estilo de vida semelhante ao da personagem principal.

 Na minha opinião, a temática central da história suscita questões fundamentais, principalmente para nós, transgressores das identidades sexuais vigentes. Na minha opinião a questão central colocada é “o que é ser mulher e o que é ser homem?”

 O QUE É SER MULHER E O QUE É SER HOMEM?

 Será que ser homem ou ser mulher é uma questão biológica ou uma questão de identificação com os valores de um ou de outro estereótipo (masculino e feminino)? Penso que são as duas coisas. No caso de Vera, o desejo é passar de um estereótipo para o outro. Ela é um exemplo de que, ao contrário do que muitas pessoas afirmam e apregoam, o corpo não é destino. O que existe, como disse Simone de Beauvoir, ainda no final da década de 50, é o tornar-se mulher, através da aceitação e/ou assimilação da construção social (temperamentos e comportamentos definidos como femininos) produzida para a mulher.

 São estas construções denominadas de “masculino” e “feminino” que utilizamos como espelho para nos auto-identificar. As diferenças biológicas serviram de pretexto para se definir certos atributos específicos para cada sexo.

 Vera rompe com o projeto que lhe foi imposto a partir do fato de ter nascido com uma determinada fisiologia. Seu corpo a impede de cruzar integralmente os limites entre o “feminino” e o “masculino”, mas não a impede de subverter o projeto social de feminilidade a ele associado. Há outras mulheres, lésbicas ou não, que aceitam seus corpos, mas recusam o modelo de feminilidade a eles associados. Aí também ocorre uma ruptura que não implica necessariamente a incorporação do modelo “masculino”.

 Fico pensando se se tornar mulher abrangesse várias possibilidades, como as de transar com outra mulher, poder ser agressiva, autônoma, independente, forte, entre outras características denominadas “masculinas”, será que as “Veras da vida” desejariam ser homens? Os transexualismos estão ligados apenas à fantasia de se ter um pênis, seios e vagina ou à toda ideologia que define a biologia dos corpos? Será possível separar as fantasias sexuais da ideologia que permeia os corpos? Acredito que as fantasias sexuais podem ser condicionadas e moldadas pelos estereótipos existentes, mas isto não é um dado geral e nem imutável. Em prol de uma maior liberdade e criatividade individual, é preciso subverter este esquema.

 A existência de padrões que vinculam determinados temperamentos e características às biológicas entre os sexos leva alguns indivíduos, não identificados com o modelo social a eles “destinado”, a se pensarem como pertencentes ao outro sexo de cujos valores se sentem mais próximos.

 Na minha opinião, quando ser homem ou mulher remeter apenas à biologia e não a determinadas características e temperamentos associados aos dois sexos, cada um poderá construir a sua personalidade, aparência e estilo de vida, da forma que mais lhe agradar. Acredito que as possibilidades individuais podem ser muito diversificadas, não cabendo, portanto, em nenhum modelo, seja ele associado ou não às características físicas.

 É possível que mesmo numa sociedade onde os comportamentos individuais fossem independentes da fisiologia das pessoas, houvesse indivíduos desejando trocar de sexo. E por que não? O contexto seria outro e não implicaria sair de um modelo para assumir outro, sem questionar a própria existência dos modelos. Neste contexto, a mudança física se apresentaria como uma das possibilidades de construção individual.

 Finalizando, no meu entender, a única nota destoante a respeito de Vera é a omissão de Sérgio Toledo sobre a influência (bastante óbvia pra ser mero acaso) que o livro de Sandra Mara Herzer, A Queda para o Alto, teve em seu filme. Vera possui várias situações idênticas às relatadas no livro: tanto Sandra Mara como Vera Bauer são poetisas e escrevem um depoimento sobre sua trajetória dentro e fora da FEBEM. Ambas recebem ajuda para sair da FEBEM e conseguir emprego: Sandra Mara, em 1982, do então deputado federal, Eduardo Matarazzo Suplicy, e Vera do professor, representado, no filme por Raul Cortez. Além disso, Sandra Mara, como Vera, desde a FEBEM, percebia-se como homem, denominando-se nas páginas de seu livro autobiográfico, como Herzer ou Bigode (seu apelido).

As situações novas ficam por conta da tônica, dada pelo cineasta, ao conflito existencial de sua personagem. Na minha opinião, a tônica do livro é a trajetória do desamor e violência vivida por Sandra Mara Herzer Bigode, em casa, na FEBEM, no trabalho e através do preconceito social devido, principalmente, a sua aparência “masculina”. Na FEBEM, a situação opressiva é gerada pela sua situação de menor abandonada que não aceita os arbítrios dos funcionários e do diretor. A postura de Sandra como “machona” acentuará a repressão sobre ela. O relato sobre sua experiência na FEBEM é bem detalhado e se constitui em um depoimento importante sobre o funcionamento deste órgão, alicerçado em métodos violentos de tratamento.

No livro, o preconceito em relação à sua aparência e postura cotidiana aparece como mais um dado, mais umas das violências sociais que recai sobre Sandra. Já no filme, a tônica se centra exclusivamente no conflito pessoal e social da personagem central. A FEBEM, o trabalho e a namorada aparecem enquanto instrumentos de repressão social ao estilo de vida adotado por Vera. O conflito pessoal da personagem central se evidencia principalmente, na cena da menstruação e quando ela expressa sua vontade fazer uma operação para mudar de sexo. A operação seria uma maneira de acabar com a situação de ambigüidade em que se encontrava. No livro, em nenhum momento, Sandra coloca ter intenção de operar-se e/ou escreve sobre grilos com a menstruação e/ou sobre rejeições sofridas com alguma namorada decido ao seu estilo de vida. É claro que o fato dela não ter escrito sobre estes acontecimentos não significa que eles não tenham ocorrido. Mas como saber? É possível que Sandra Mara Herzer Bigode e Vera Bauer se constituam em dois estilos de vida, duas rupturas diversas em relação ao estereótipo feminino.

De qualquer maneira, levando em conta as várias coincidências entre filme e livro, acho que, no início, Sérgio Toledo deveria ter feito constar, na extensa parte de agradecimentos pela colaboração em Vera, um item sobre o livro de Sandra, como fonte inspiradora do roteiro. Assumir que Vera é uma adaptação livre do livro A Queda para o Alto de Sandra Mara Herzer seria a postura que considero mais correta.

À parte este senão, o filme, além de nos proporcionar o prazer estético de um trabalho muito bem produzido em todos os aspectos, nos oferece, também, a oportunidade de, através da história do conflito de Vera, questionarmos a ditadura dos modelos sexuais e sociais de feminilidade e masculinidade. Os travestis, os homens homossexuais, as mulheres lésbicas, os transexuais, as prostitutas, etc..., nos indicam que as criações individuais não deveriam estar presas a nenhum modelo e muito menos serem punidas e violentadas por não corresponderem aos padrões impostos. Na minha opinião, o debate sobre a necessidade de ampliação dos espaços para a criação de estilos de vida deveria fazer parte do processo democrático da sociedade brasileira. Neste sentido, o filme oferecer uma importante contribuição.

ROTH, Rosely. Vera, o filme. Boletim Um Outro Olhar, ano I, número 1, set/dez 1987.

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