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Amigas
de colégio
(Fucking Amal, 1998)
Diretor: Lukas Moodysson
Com: Alexandra Dahlströn, Rebecca Liljeberg
Distribuidora:Cult film
Quando
Amigas
de Colégio, filme do diretor sueco Lukas Moodysson, passou no
Festival Mix Brasil, produziu tal encanto que acabou levando o prêmio
de Melhor Filme do Júri Popular. O segredo do filme: ele está anos
luz da visão que os filmes americanos têm do mundo dos
adolescentes. Um dos poucos filmes que eu assisti em que os
adolescentes são retratados com respeito e não como um bando de
palhaços sem graça.
A história se passa em Amal, uma cidadezinha da Suécia, e gira em
torno da descoberta da sexualidade por um grupo de jovens, entre
eles Elin, a loirinha bonita do colégio que tem uma considerável
lista de ex-namorados, e Agnes, a garota diferente que, ao contrário
de Elin, não tem amigos no colégio porque todo mundo desconfia que
ela seja lésbica. Aí você pensa: ah! Mais eu já vi essa história
antes. Calma! Você também deduz que duas adolescentes descobrindo
sua lesbianidade em uma cidadezinha da Suécia dever ser totalmente
diferente de duas adolescentes de uma cidadezinha qualquer aqui no
Brasil. Errado! Por incrível que pareça, você percebe que os
mecanismos são os mesmos: as mesmas dúvidas, os mesmos dramas, os
mesmos conflitos, as mesmas vontades.
Os pais de Agnes resolvem dar-lhe uma festa de
aniversário contra
sua vontade. Claro que ninguém aparece, a não ser uma garotinha
chata que na verdade apenas suporta Agnes porque, tal como ela,
sofre com o preconceito dos colegas do colégio, no seu caso por ter
problemas físicos. Porém, num ímpeto, Agnes manda a hipocrisia às
favas e, junto com ela, a garotinha chata. Então ocorre uma
reviravolta: Elin, na ânsia de
fazer algo diferente, convence a irmã
mais velha a ir com ela à festa de Agnes e aposta com ela que
beijará a aniversariante na boca. Ganha a aposta e depois, já em
outra festa, com a consciência pesada, decide voltar e pedir
desculpas a Agnes.
Voltando para se desculpar, Elin não apenas salva a
vida de Agnes, que tentara se suicidar ao som de Adaggio de
Albioni, mas a sua também. Elin convida Agnes para ir a uma outra
festa com ela. Quando decidem seguir para Estocolmo a e não para a
festa, elas simplesmente mudam o rumo de suas vidas. Logo depois,
vem a cena do beijo entre elas que, de um modo muito delicado,
acontece dentro de um carro ao som de I Know what love is do
grupo Foreigner. A partir daí tudo vira de ponta cabeça. A garota
mais cobiçada do colégio se descobre apaixonada por outra garota,
o patinho estranho do colégio, e, numa tentativa louca de enganar a
si mesma, resolve namorar o primeiro garota que lhe aparece na
frente. Pensa que menosprezando, diminuindo quem sabe que ama, pode
se convencer do contrário. Mas o estrago já havia sido feito.
Conforme o tempo passa, mais ela percebe a distância que separa
Agnes de seu namorado e do restante de seus amigos adolescentes,
inclusive o namorado machista e vazio da irmã mais velha, e isso a
faz sentir-se cada vez mais atraída pela menina.
Na outra ponta do filme está Agnes que cada vez mais
se vê distante dos pais (o pai fica tentando fazer com que a filha
se enxergue como um auto-retrato dele). Soa ridículo o diálogo em
que o pai tenta se impor à filha, explicando que levou uns vinte e
cinco anos para compreender o que é ser feliz. Ela simplesmente
responde que prefere ser feliz naquele momento, no agora. A mãe que
antes tinha um discurso moderninho em relação à lesbianidade,
dizendo que mesmo uma garota sendo lésbica merecia respeito, entra
em parafuso ao descobrir que sua filha também é. Na escola, a
solidão se intensifica: os garotos aproveitam a
situação
e a ridicularizam cada vez mais. E o pior de tudo é a indiferença
de Elin.
Entretanto, o desejo e o amor vencem quaisquer
barreiras tanto numa cidadezinha da Suécia quanto em qualquer outra
do mundo. Elin se rende à sensibilidade, à inteligência, ao amor
de Agnes. E é interessante a maneira como Moodyson narra esse fato:
ele cria uma nova versão bem divertida da história do “sair do
armário (quando uma lésbica se assume para todos como tal).”
Também a interpretação sincera e correta das atrizes torna suas
respectivas personagens muito humanas, muito próximas de cada uma
de nós. Quem, pelo menos uma vez na vida, não passou por alguma
das situações vividas por elas?. Enfim, Moodysson fez um filme
simples, onde o bom humor e a dramaticidade na medida certa garantem
o sucesso. Sem dúvida nenhuma,
uma ótima diversão e uma boa pedida para sua tarde de
domingo!
Publicado
originalmente na revista Um Outro Olhar – Saúde, Cultura e
Sexualidades, ano 14, n. 33, p. 13. Reedição 01/11/06.
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