O farol alto do carro desceu sobre o
asfalto ainda úmido de chuva, as gotículas minúsculas brilhando
como pequenas estrelas sob os pneus de borracha.
Lara apoiou o queixo no volante enquanto observava em silêncio as
grades entre ela e a casa.
Na verdade um prédio de dois andares protegido por um muro
extraordinariamente alto e seu portão de ferro hermeticamente
fechado. Parecia ainda mais cinzento à noite. Tudo nele parecia
escuro, frio, cimentado. Até mesmo as poucas janelas iluminadas
como entidades distantes atrás do muro intransponível.
Inatingível.
I nalcançável. Exatamente como Lara.
Os olhos de Lara, assim como as janelas, eram estranhamente
parecidos com pedras. Azuis como safiras. Duramente lapidados.
Ela tocou a buzina três vezes, como sempre fazia. Seus olhos se
deixaram abater por um momento. O cansaço os amenizando um pouco,
ameaçando ficar ali à mostra. Nada que não soubesse fingir,
camuflar, esconder.
Rapidamente, as pedras azuis voltaram a ficar inexpressivas como
sempre. Anos e anos de prática lhe davam vantagem. Ela mesma já
não sabia dizer como fazia. Era quase automático. Como um dom ou
super poder. Ou talvez, a falta de algo. Quem olhasse de fora não
saberia dizer.
O segurança que abriu o portão disse um:
- Boa noite, doutora.
Quase incompreensível. Não fazia diferença, porque de qualquer
forma, Lara não ia perder tempo em responder.
Não se abalou nem estremeceu ao ouvir o portão batendo atrás dela
como masmorra que fecha, trancando-a com um guincho-rangido. Um
barulho e mais nada.
Saiu do carro, atirou a chave para o manobrista. Os passos ecoaram
com um som de castanholas. Lara sorriu com a comparação absurda.
Nada nela se aproximava de algo que pudesse lembrar uma dançarina
flamenca. Fazia bastante questão disso. Preferia mil vezes uma
distante e confortável impessoalidade.
Entrou em casa e a empregada a recebeu como sempre. Tirando a
pasta e a bolsa das mãos dela, absolutamente eficiente.
- Boa noite, doutora.
Lara se limitou a um aceno impaciente de cabeça.
- Quer alguma coisa?
Levantou a mão, num gesto que a outra já sabia que queria dizer:
“Pode se recolher.” – antes de entrar no longo corredor.
Dora estava no escritório, sentada atrás da escrivaninha dela e da
habitual pilha gigantesca de papéis.
O fundo musical era muito mais do que um simples CD. Eram
recordações que bailavam, impossíveis para Lara esquecer...
***
- Quero ser seu braço direito.
Lara tinha dito a Dora há alguns anos atrás.
Numa das muitas noites em que tinha ficado sozinha com ela no
escritório, trabalhando até mais tarde. Quando ainda não passava
de uma estagiariazinha ambiciosa cansada de se insinuar sem
resultado.
- Quero uma coisa em troca.
Tinha sido a resposta de Dora. Lara a tinha olhado de uma forma
absurdamente firme ao perguntar:
- O quê?
Dora respondeu sem hesitar:
- Você.
Lara não recuou. Sequer se surpreendeu. Os olhos azuis de uma
frieza incisiva ao dizer:
- Tudo bem.
Na verdade, fazia tempo que Lara tinha desistido de dar
importância aos próprios sentimentos. E mesmo se o fizesse, a
exigência de Dora não teria outro efeito. Acostumada que estava em
usar os atributos físicos em troca de vantagens, favorecimentos e
outros incontáveis pequenos favores.
Não considerava isso como prostituição. Para Lara sexo era uma
questão de lógica. Não tinha problemas em fazer. Tirava prazer de
quem quer que fosse. Não acreditava em sexo com amor pelo simples
fato de jamais ter se apaixonado.
Aos 25 anos, achava que o amor era uma espécie de dogma. Todos
aceitam sem questionar se existe mesmo. E não ia perder tempo nem
oportunidades por causa de algo que considerava, no mínimo,
idiota.
Verdade que Lara nunca tinha feito sexo com uma mulher, mas isso
era o que menos importava. Não tinha sido por preconceito ou algo
do gênero. Mas simplesmente porque ainda não tinha surgido a
ocasião conveniente para que isso acontecesse. Aquele parecia ser
o momento perfeito.
***
Lara olhou em volta. Para o quarto impecavelmente arrumado de
Dora. Em tudo ele parecia um frigorífico. Um frigorífico onde ela
era o pedaço de carne crua pendurado no gancho. Quase podia sentir
o sangue pingando no caríssimo – só podia ser caríssimo – e
elegantíssimo tapete em frente à cama.
Dora diminuiu a luz. Mergulhando as duas na penumbra, dois vultos
indistintos. Colocou uma música. Num volume comedido. O
instrumental causando em Lara uma sensação estranha, algo que ela
nunca tinha sentido.
Não era bem um incômodo, nem angústia... até parecido, só que...
totalmente desconhecido. Mas o que realmente a deixou assustada
foi o fato de estar sentindo.
Uma forte impressão de irrealidade a atingiu...
Dora não se aproximou. Ficou alguns passos dela, observando como
uma felina. Perguntou:
- Gosta de Piazzolla?
Lara a olhou deixando claro que não tinha compreendido. Dora
explicou sem desviar os olhos dos dela um instante, com um tom de
voz baixo e rouco, que causou arrepios:
- Astor Piazzolla é um dos compositores de tango mais importantes
da Argentina. Essa música é dele. Uma das minhas preferidas. Se
chama “Libertango”.
Era a música que rodava? Ou algo dentro dela? Os olhos de Dora
pareciam cintilar, como duas pequenas janelas, como se nada mais
existisse sobre a terra. Nada além de Lara e ela.
Surpresa, assustada e estranhamente seduzida...
O instinto de Lara foi preciso: precisava sair dali. Mas Dora
pegou o rosto dela entre as mãos e se tornou impossível. Encostou
os lábios – macios, tão macios – nos dela e aí a idéia de fugir se
tornou ridícula.
A suavidade do beijo a fez fechar os olhos e corresponder. A
respiração se tornando difícil. Entreabriu os lábios e a língua de
Dora a invadiu com uma voracidade suave e sutil.
Lara estremeceu, passou os braços ao redor da cintura dela e a
puxou para si.
***
Quando terminou, Lara demorou muito para conseguir sair do estado
em que estava e abrir os olhos. Afundada não na extrema maciez do
colchão, lençol e travesseiros de pena de ganso e sabe-se lá
quantos fios, mas na dolorosa consciência de ter se entregado
inteira.
Deitada de lado, o corpo grudado no dela, a mão intimamente
pousada na barriga de Lara, Dora a espreitava. Com o olhar
satisfeito de predadora que acaba de se banquetear com sua presa.
Os olhos azuis resvalaram nos dela. Pela primeira vez na vida
desarmados e sem saber o que fazer. Se Dora percebeu não disse
nada. Nem nada fez. Ficou ali parada, olhando enigmaticamente para
Lara, durante um longo tempo.
Foram as safiras que se desviaram. Dos olhos para a boca de Dora.
Para os lábios que tinham percorrido o corpo dela inteiro. Num
reconhecimento de quem sabe muito bem o que está fazendo. Se
unindo às mãos e aos dedos para provocar e causar uma
inacreditável sensação de... de que? Como definir o delicioso
sufocar, queimar, arder, derreter e depois expandir sem barreiras?
Completo e total esquecimento do eu, de toda e qualquer outra
coisa que não fosse o doce ronronar do prazer. Obrigando Lara a
suplicar, implorar, antes de a tomar realmente.
Nunca tinha cogitado a idéia de que sexo poderia ser daquele
jeito. E sentiu medo.
Não só pelo fato de não conseguir entender. Nem pelo fato de
detestar perder o controle da situação. Mas porque... Nada de bom
poderia vir de algo tão... intenso.
Sentou na cama com uma pressa evidente. As mãos tateando em busca
das roupas espalhadas. Em vão. Dora a segurou pelo braço, dizendo:
- Ainda é cedo.
A boca de Lara se abriu, mas ela nada falou. Um desespero
irracional a dominou. Como num pesadelo em que se quer gritar mas
não sai a voz. Ainda mais quando Dora completou num tom
abusivamente macio e sedutor:
- Quero mais, muito mais de você.
Lenta, muito lentamente. O coração palpitando ao compasso de
Piazzolla no peito, Lara se deitou. E deixou que Dora tivesse
irrestrito controle do corpo dela novamente.
***
Com uma rapidez incrível, os dias se transformaram em semanas, e
as semanas em meses. E apesar de Lara já ter feito sexo com Dora
inúmeras e incontáveis vezes, sempre era surpreendente. Como se o
tempo e a quantidade apenas aumentasse o clímax do desfecho.
O acordo entre elas parecia perfeito. Se Lara não se questionasse
sobre o verdadeiro preço. Constantemente repassava – ou melhor:
ficava remoendo:
- Quero ser seu braço direito.
- Quero uma coisa em troca.
- O quê?
- Você.
E ainda assim continuava sem ter certeza do que aquilo queria
dizer.
Se se tratasse apenas de corpo e carne seria fácil, muito fácil de
se lidar. Sem problemas. Mas não era. Impossível negar o quanto
Dora tinha se tornado dona de Lara por inteiro. Como se naquele
contrato verbalmente acertado tivesse vendido o espírito, a alma,
o ser.
Não queria pensar, não queria saber. Tentava se dominar, esconder
a loucura dos próprios... sentimentos. Sim, eram sentimentos. Por
mais que não desejasse tê-los.
Se tornou constante Lara ficar parada, olhando para o nada
distraidamente. Sorrindo sem saber porquê.
Nesses momentos de ausência Dora sempre se aproximava. A tocava de
leve, carinhosamente. Lara se assustava, saltando ao toque como
que mordida por uma serpente. Dora então a olhava daquele jeito
enigmático e dizia:
- Você ainda tem muito que aprender.
Deixando Lara sem compreender.
***
- Lara?
A voz de Dora imediatamente a fez parar o que estava fazendo.
Levantou os olhos dos papéis, gaguejando como uma garotinha
assustada ao responder:
- Q...quê?
Dora sorriu. Enigmaticamente. Antes de dizer:
- Quero que você se mude para cá.
Não tinha escutado direito. Foi disso que Lara tentou se
convencer. Não teve jeito. Dora completou:
- Amanhã mesmo.
A reação de recusa que teve foi tão forte que balançou a cabeça em
negação sem nem perceber. Perguntou, com uma fraqueza na voz
evidente:
- Por quê?
O que Dora estava pensando? O que queria realmente? Lara não
conseguia saber. O rosto dela, os olhos, o jeito, eram
inexpressivamente impassíveis. Como chamas de gelo.
Observava Lara com a segurança de quem numa sala de interrogatório
fica protegida atrás do espelho. Inalcançável, inatingível,
intransponível.
De repente, Dora abriu um sorriso. Enigmático e incompreensível,
mas um sorriso. Fez Lara se levantar da cadeira. A puxou pela
cintura, mergulhou a boca no pescoço que imediatamente se
ofereceu. Sussurrou sem parar o que estava fazendo:
- Decifra-me ou te devoro.
- Ah?
A perplexidade de Lara fez Dora sorrir mais ainda. Fez Lara se
sentar em cima da mesa. Se encaixou entre as pernas dela, os olhos
fixos nos dela:
- Foi o que a esfinge falou para Édipo, minha querida.
Ainda tentou fazer com que ela explicasse. Apesar das mãos de Dora
já estarem provocando tremores, passeando no corpo dela com a
habilidade de sempre:
- O que você quer dizer?
A resposta de Dora foi colar os lábios nos de Lara vorazmente.
***
O que Lara mais temia não aconteceu. Ganhou um quarto só dela. Em
frente ao de Dora, mas só dela. Não que dormisse sozinha.
Às vezes Dora a levava para o quarto dela depois do jantar. Às
vezes batia na porta de Lara três vezes, como quem pede
consentimento. Lara então dizia, com um sorriso imenso:
- Entra.
Até o dia em que Dora não veio. Lara passou a noite toda sem
conseguir dormir direito. Esperando, desejando, querendo que as
três batidas na porta acontecessem. Mas o dia amanheceu sem que
Dora aparecesse.
Disfarçou como pode as olheiras. Desceu para o café da manhã com
uma tristeza inexplicável, inaceitável, incoerente.
Se Dora percebeu não disse nada. Nem nada fez. Ficou ali parada,
olhando enigmaticamente para Lara, durante um longo tempo.
Foram as safiras que se desviaram. E não voltaram a encontrar os
olhos de Dora enquanto Lara se obrigava a comer.
O dia inteiro foi aquele sofrimento. Mal se falaram. Dora parecia
distante, fria, indiferente. Alimentando o terremoto que Lara
tinha por dentro.
Quando percebeu que Dora ia se retirar, perdeu o controle
completamente. A segurou pelo braço. Perguntou num tom de profundo
desespero:
- O que está acontecendo?
Dora a olhou surpresa. Não respondeu. Perguntou também:
- O que você quer dizer?
Lara não pensou, nem maquinou, muito menos planejou o que dizer.
Foi sincera:
- Porque você não foi no meu quarto ontem?
Dora sorriu ao responder:
- Porque fiquei esperando você no meu.
A primeira reação de Lara foi franzir a testa. Ainda sem entender.
A dúvida se transformou em perplexidade. Depois em alívio. E
então, finalmente, em ardor.
Passou os braços ao redor do pescoço de Dora e a beijou. Sem nem
perceber que pela primeira vez tomava a iniciativa.
Dominada por algo incontrolável. Algo que a assustava, mas que por
outro lado a deixava surpreendentemente liberta.
Parou de se conter como quem faz uma curva e pisa no freio. O
instinto a levando a aproveitar tudo que Dora oferecesse. Bebeu
dela como de um oásis no meio do deserto. A tocou como um náufrago
ao chegar a terra.
Se Dora percebeu não disse nada. Nem fez nada diferente. Continuou
do mesmo jeito.
Só que dessa vez Lara compreendeu. O quanto Dora era - sempre
tinha sido – apaixonada e intensa. Desde a primeira vez.
***
Horas depois, se deixaram ficar deitadas nuas na cama de Dora -
uma nos braços da outra - absolutamente satisfeitas.
Lara com a cabeça encostada no ombro de Dora, que acariciava as
costas de Lara carinhosamente.
Lara ergueu os olhos, mergulhando os de Dora num azul profundo e
ardente. Sussurrou com uma segurança que as surpreendeu:
- Quero me mudar para cá.
Dora sorriu. Enigmaticamente. A beijou suavemente nos lábios e
respondeu:
- Esse quarto sempre foi seu.
Voltaram a se beijar. Dessa vez apaixonadamente.
***
....Lara ficou parada na porta do escritório. Olhando para Dora,
as lembranças bailando nos lábios dela sob a forma de um sorriso
intenso.
Dora finalmente ergueu os olhos e a viu.
O sorriso de Lara aumentou mais e mais quando Dora correspondeu. A
música ainda tocava, rodopiando incessantemente pelo ambiente.
Lara se aproximou. Antes de comentar:
- Piazzolla...
Dora sorriu quando escutou. Lara sorriu de volta. Dessa vez
sedutora, envolvente, demonstrando suas intenções claramente.
Completou:
- “Libertango”... Essa música me traz ótimas recordações.
Dora afastou a cadeira da mesa, bateu com a mão na coxa, e chamou:
- Vem cá, vem...
Sem hesitação nenhuma, Lara a atendeu. Sentou no colo de Dora e a
beijou. Os braços ao redor do pescoço dela, completamente
entregue. Sussurrou:
- Quero você.
E Dora a satisfez. Ali mesmo com a porta aberta, pouco se
importando com um dos empregados poder entrar e as surpreender.
Infindável tremular de se buscar, se guiar, se perder. Indo e
voltando incessantemente.
As mãos provocando tremores, passeando pelos corpos com a
habilidade de sempre.
Causando uma sensação conhecida, constante e urgente.
Música que rodava fora e dentro delas. Os olhos cintilando, num
doce e sufocado tormento. Como se nada, nada além das duas
existisse sobre a terra.
Os lábios macios, a suavidade dos beijos exigentes, as mãos, dedos
e línguas de uma voracidade suave, mas persistente.
Respirações se tornando sutilmente difíceis e trêmulas.
Suave sufocar. Queimando, ardendo, derretendo...
Passionalmente. Antes da explosão certeira.
Completo e total esquecimento de toda e qualquer outra coisa que
não fosse a entrega misteriosa, deliciosa e intensa. As unindo num
único momento.
Tomadas por algo incontrolável, impossível de se descrever. Fora
do espaço e tempo. Irracional e irresistível resfolegar do ardor.
Não se perguntavam, questionavam nem formulavam teorias.
Simplesmente aproveitavam e viviam o que sentiam. Sem que para
isso fosse necessário algum tipo de tese ou monografia.
E apesar de nunca terem se dito nada – nem precisavam, os meses e
anos de atos, cumplicidade e convivência entre as duas falavam
mais do que qualquer outro fator - dentro das duas uma firme
certeza existia: que aquilo era – só podia ser - amor.
|