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Uma aliança tão delicada
Stella C. Ferraz 


A campainha tocou com insistência, num sentido de urgência urgentíssima, de tempo que se esgota. O problema não era da dona da casa que preparava nessa hora, em paz e quietude, o jantar, naquele dia em que a sua dedicada empregada não viera. Prestimosa aquela auxiliar, sempre a descobrir nos desvãos de sua casa as coisas mais desconcertantes como aparelho de dentes para dar um exemplo ou, para lembrar o mais recente, uma aliança de casamento.

A dona da casa, que aqui dispensa apresentação, posto que é mesmo dona da casa, por papel passado e firma reconhecida, se perguntava mais uma vez que espécie de limpeza a sua empregada realizava para encontrar objetos tão improváveis em seus domínios.

Mas não pôde a dona prosseguir no devaneio e nas bucólicas interrogações que a entretinham, pois a campainha voltou a chamar, agora num tom de súplica e delicada exigência. Uma campainha cheia de sutilezas era essa a da dona da casa, capaz de traduzir o estado de alma daqueles que a tocavam.

Descansou a faca e a cebola que cortava, lavou as mãos e foi para o portão. Tanta pressa inesperada bem na hora do jantar!

Aberta a porta, uma figura esguia, diáfana como a luz, sedutora como as estrelas, de uns olhos doces e aflitos a surpreendeu. Era uma noiva.

Uma noiva? O que faz uma noiva à minha porta? Pois como noiva estava vestida, de véu, grinalda, buquê de flores e uma cauda de vestido branco, comprida e alva. Uma noiva autêntica, prestes a ir para o altar.

— O que deseja? Perguntou pressurosa a dona da casa, abrindo um sorriso cativante, as covinhas singelas a sorrirem de ponta a ponta.

Aquela era uma noiva bonita, como jamais vira. E também doce e terna, tão aflita que merecia ser protegida. E a dona da casa sentiu de repente que por essa noiva faria qualquer coisa, lhe daria o sol, a lua, as estrelas, a de Vênus com certeza, e até a sua própria casa com os gatos todos dentro...

A noiva atentou por um instante para as covinhas da dona da casa, mas ali não se deteve, seguindo adiante, atrás do objeto de seu desejo: a aliança.

Ah, era a aliança, constatou decepcionada a dona da casa, que bem que quisera ser, nem que fosse  por um segundo, o objeto daquela comovida procura.

                A dona levou a noiva para dentro de casa, ajudando-a com cuidado e com carinho a carregar a longa cauda e a atravessar o quintal com os sapatos delicados de subir o altar.

                Adentraram a sala, evitaram a cebola da cozinha, percorreram céleres o corredor até o quarto. Ali sobre o criado mudo, calada e aguardante, jazia a cobiçada aliança. A noiva a pegou jubilosa, com gritinhos de alívio, para em seguida depositar um beijo agradecido, doce e leve junto a cada uma das graciosas covinhas da dona da casa.

                Despediu-se a noiva com pressa: esperavam-na noivo, padrinhos, madrinhas, convidados, convidadas, padre, coroinhas, maestro, músicos, guardadores de carro, fotógrafos e, por último e não menos importante, o sobrinho que haveria de carregar a perdida aliança sobre uma almofada do mais azul e fofo veludo.

                A dona da casa nem chegou a fechar o portão e a campainha voltou a soar. Era a noiva outra vez.

                — Você tem de me levar para a igreja, não posso ir assim pelas ruas, e já atrasada. — E assim dizendo, foi a noiva se enfiando dentro do automóvel da dona que o era da casa e também do carro.

                — Vamos, vamos! - pediu com urgência. — Aonde você vai? - perguntou, vendo a dona do carro  sair correndo.

                — Atrás do cachimbo! - gritou-lhe esta, já retornando.

                A noiva deixou o assento de trás, assento próprio de noivas que estão prestes a se casar, e foi observar a operação.

                A dona da casa, agora do carro, abriu o capô, em algum lugar das ferragens meteu a geringonça, explicando que sem o cachimbo o carro não anda e ninguém também lhe toma o carro. Mas posto o cachimbo bastava bater o capô, e zás, colocar-se no banco do motorista e partir.

                — Vamos, vamos! - instou a noiva com pressa.

                Ah, mas não! Não havia como arredar o pé da frente do carro. Um pedaço da blusa estava presa sob o capô fechado. Um instante de hesitação: desnudar-se diante de noiva tão bela, sacando a blusa? Ficar ali parada como um dois de paus ou... E foi isso que a dona da casa fez. Num repelão, puxou a blusa e - com o que lhe sobrava em cima, agora bem menos do que antes - foi se instalar atrás da direção. A noiva já voltara rápida a seu lugar de noiva rumo ao altar.

                A dona da casa era tão boa piloto quanto mecânico e num zás trás estacionava o carro na porta da igreja.

                O noivo, padrinhos, madrinhas e convidados tinham estampado nos olhos a apreensão do atraso indevido, muito maior do que aquele usualmente concedido às noivas. Os músicos lá em cima já se queixavam das horas a mais que eram obrigados a tocar, os guardadores de carros resmungavam e o padre já via que se iam encavalar os casamentos.

                Mas a noiva aguardada era chegada. O maestro levantou a batuta e os músicos atacaram con brio a marcha nupcial.

                A noiva deixou o carro, mas antes de se afastar para todo o sempre da vida da dona da casa, pegou-lhe a mão, acariciou-lhe os dedos e, com o olhar, lhe falou algo doce e solene que tocou o coração da dona da casa. E sumiu em seguida sob os holofotes dos fotógrafos que fotografavam, do pai que lhe estendia o braço, dos que lhe ajeitavam a cauda do vestido.

                A dona da casa a viu partir pela nave da igreja rumo ao altar. Voltar para sua cozinha e para sua cebola, a meio caminho da panela? Não, ela não poderia suportar. Não era uma dona de casa de ir a casamentos, arrepiava só de pensar, mas aquele ela tinha que ver. Ver a noiva dizer o sim, beijar o noivo e ser feliz para sempre. Ainda que ela não acreditasse que a noiva ou mesmo ela — dona da casa e do carro, dos gatos não, pois são eles que nos têm —, ainda que ela não acreditasse que a noiva ou mesmo ela pudessem viver felizes separadas uma da outra depois daquele encontro.

                A dona da casa ajeitou, pois, o resto de blusa para dentro das calças, passou a mão nos cabelos e mais composta se esgueirou pelas paredes até aproximar-se do altar. A cerimônia teve início. A dona da casa já suspeitava que no momento em que aquela aliança, que sua prestimosa empregada encontrara sob o sofá da sala, fosse colocada pela noiva no anular do noivo, sua sorte estaria selada, ela teria perdido sua princesa encantada e seria infeliz para todo o sempre.

                E de fato, na hora em que a noiva tomou a aliança, a dona da casa sentiu um aperto no coração. Seus olhos súplices, como uma campainha aflita, pousaram sobre a noiva. Esta se virou, por encanto ou predestinação, quem sabe? e seus olhos se encontraram, se disseram coisas, discutiram, argumentaram, negociaram e, por fim, se entenderam.

                A noiva suspendeu então o gesto, desceu do altar e dirigiu-se, sozinha e decidida, para  onde se encontrava a dona da casa. Tomou sua mão, acariciou o anular que ainda recendia à cebola e ali deslizou a aliança. E, com um beijo, pediu que a levasse pra casa.

Stella C. Ferraz é autora dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense. (25/10/05)
 

 

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