A
campainha tocou com insistência, num sentido de urgência urgentíssima,
de tempo que se esgota. O problema não era da dona da casa que
preparava nessa hora, em paz e quietude, o jantar, naquele dia em
que a sua dedicada empregada não viera. Prestimosa aquela auxiliar,
sempre a descobrir nos desvãos de sua casa as coisas mais
desconcertantes como aparelho de dentes para dar um exemplo ou, para
lembrar o mais recente, uma aliança de casamento.
A
dona da casa, que aqui dispensa apresentação, posto que é mesmo
dona da casa, por papel passado e firma reconhecida, se perguntava
mais uma vez que espécie de limpeza a sua empregada realizava para
encontrar objetos tão improváveis em seus domínios.
Mas
não pôde a dona prosseguir no devaneio e nas bucólicas interrogações
que a entretinham, pois a campainha voltou a chamar, agora num tom
de súplica e delicada exigência. Uma campainha cheia de sutilezas
era essa a da dona da casa, capaz de traduzir o estado de alma
daqueles que a tocavam.
Descansou
a faca e a cebola que cortava, lavou as mãos e foi para o portão.
Tanta pressa inesperada bem na hora do jantar!
Aberta
a porta, uma figura esguia, diáfana como a luz, sedutora como as
estrelas, de uns olhos doces e aflitos a surpreendeu. Era uma noiva.
Uma
noiva? O que faz uma noiva à minha porta? Pois como noiva estava
vestida, de véu, grinalda, buquê de flores e uma cauda de vestido
branco, comprida e alva. Uma noiva autêntica, prestes a ir para o
altar.
—
O que deseja? Perguntou pressurosa a dona da casa, abrindo um
sorriso cativante, as covinhas singelas a sorrirem de ponta a ponta.
Aquela
era uma noiva bonita, como jamais vira. E também doce e terna, tão
aflita que merecia ser protegida. E a dona da casa sentiu de repente
que por essa noiva faria qualquer coisa, lhe daria o sol, a lua, as
estrelas, a de Vênus com certeza, e até a sua própria casa com os
gatos todos dentro...
A
noiva atentou por um instante para as covinhas da dona da casa, mas
ali não se deteve, seguindo adiante, atrás do objeto de seu
desejo: a aliança.
Ah,
era a aliança, constatou decepcionada a dona da casa, que bem que
quisera ser, nem que fosse por
um segundo, o objeto daquela comovida procura.
A dona levou a noiva para dentro de
casa, ajudando-a com cuidado e com carinho a carregar a longa cauda
e a atravessar o quintal com os sapatos delicados de subir o altar.
Adentraram a sala, evitaram a cebola da
cozinha, percorreram céleres o corredor até o quarto. Ali sobre o
criado mudo, calada e aguardante, jazia a cobiçada aliança. A
noiva a pegou jubilosa, com gritinhos de alívio, para em seguida
depositar um beijo agradecido, doce e leve junto a cada uma das
graciosas covinhas da dona da casa.
Despediu-se a noiva com pressa:
esperavam-na noivo, padrinhos, madrinhas, convidados, convidadas,
padre, coroinhas, maestro, músicos, guardadores de carro, fotógrafos
e, por último e não menos importante, o sobrinho que haveria de
carregar a perdida aliança sobre uma almofada do mais azul e fofo
veludo.
A dona da casa nem chegou a fechar o
portão e a campainha voltou a soar. Era a noiva outra vez.
— Você tem de me levar para a
igreja, não posso ir assim pelas ruas, e já atrasada. — E assim
dizendo, foi a noiva se enfiando dentro do automóvel da dona que o
era da casa e também do carro.
— Vamos, vamos! - pediu com urgência.
— Aonde você vai? - perguntou, vendo a dona do carro
sair correndo.
— Atrás do cachimbo! - gritou-lhe
esta, já retornando.
A noiva deixou o assento de trás,
assento próprio de noivas que estão prestes a se casar, e foi
observar a operação.
A dona da casa, agora do carro, abriu o
capô, em algum lugar das ferragens meteu a geringonça, explicando
que sem o cachimbo o carro não anda e ninguém também lhe toma o
carro. Mas posto o cachimbo bastava bater o capô, e zás,
colocar-se no banco do motorista e partir.
— Vamos, vamos! - instou a noiva com
pressa.
Ah, mas não! Não havia como arredar o
pé da frente do carro. Um pedaço da blusa estava presa sob o capô
fechado. Um instante de hesitação: desnudar-se diante de noiva tão
bela, sacando a blusa? Ficar ali parada como um dois de paus ou... E
foi isso que a dona da casa fez. Num repelão, puxou a blusa e - com
o que lhe sobrava em cima, agora bem menos do que antes - foi se
instalar atrás da direção. A noiva já voltara rápida a seu
lugar de noiva rumo ao altar.
A dona da casa era tão boa piloto
quanto mecânico e num zás trás estacionava o carro na porta da
igreja.
O noivo, padrinhos, madrinhas e
convidados tinham estampado nos olhos a apreensão do atraso
indevido, muito maior do que aquele usualmente concedido às noivas.
Os músicos lá em cima já se queixavam das horas a mais que eram
obrigados a tocar, os guardadores de carros resmungavam e o padre já
via que se iam encavalar os casamentos.
Mas a noiva aguardada era chegada. O
maestro levantou a batuta e os músicos atacaram con brio a
marcha nupcial.
A noiva deixou o carro, mas antes de se
afastar para todo o sempre da vida da dona da casa, pegou-lhe a mão,
acariciou-lhe os dedos e, com o olhar, lhe falou algo doce e solene
que tocou o coração da dona da casa. E sumiu em seguida sob os
holofotes dos fotógrafos que fotografavam, do pai que lhe estendia
o braço, dos que lhe ajeitavam a cauda do vestido.
A dona da casa a viu partir pela nave
da igreja rumo ao altar. Voltar para sua cozinha e para sua cebola,
a meio caminho da panela? Não, ela não poderia suportar. Não era
uma dona de casa de ir a casamentos, arrepiava só de pensar, mas
aquele ela tinha que ver. Ver a noiva dizer o sim, beijar o noivo e
ser feliz para sempre. Ainda que ela não acreditasse que a noiva ou
mesmo ela — dona da casa e do carro, dos gatos não, pois são
eles que nos têm —, ainda que ela não acreditasse que a noiva ou
mesmo ela pudessem viver felizes separadas uma da outra depois
daquele encontro.
A dona da casa ajeitou, pois, o resto
de blusa para dentro das calças, passou a mão nos cabelos e mais
composta se esgueirou pelas paredes até aproximar-se do altar. A
cerimônia teve início. A dona da casa já suspeitava que no
momento em que aquela aliança, que sua prestimosa empregada
encontrara sob o sofá da sala, fosse colocada pela noiva no anular
do noivo, sua sorte estaria selada, ela teria perdido sua princesa
encantada e seria infeliz para todo o sempre.
E de fato, na hora em que a noiva tomou
a aliança, a dona da casa sentiu um aperto no coração. Seus olhos
súplices, como uma campainha aflita, pousaram sobre a noiva. Esta
se virou, por encanto ou predestinação, quem sabe? e seus olhos se
encontraram, se disseram coisas, discutiram, argumentaram,
negociaram e, por fim, se entenderam.
A noiva suspendeu então o gesto,
desceu do altar e dirigiu-se, sozinha e decidida, para
onde se encontrava a dona da casa. Tomou sua mão, acariciou
o anular que ainda recendia à cebola e ali deslizou a aliança. E,
com um beijo, pediu que a levasse pra casa.
Stella C. Ferraz é autora
dos romances lésbicos Preciso te ver, A Vilas das Meninas e
Pássaro Rebelde, publicados pela ed. Brasiliense.
(25/10/05)