Era
um prédio de três andares, estava quente e Clara resolveu ir até a
varanda tomar um ar.
Beatriz, por sua vez, estava em frente à entrada do prédio. Estava
se mudando para lá e pensando em como seria sua nova vida. Era
escritora e havia escolhido aquele bairro porque precisava de um
local mais tranqüilo para escrever seu novo livro. Foi num cruzar de
olhares que tudo começou. Um magnetismo ocorreu entre as duas, uma
vontade de penetrar naquele enigma que uma ainda representava para a
outra. A distância não permitiu uma palavra sequer, mas Clara baixou
o olhar e Beatriz entrou no prédio, completando assim o encaixe
perfeito.
Os dias
foram se passando e as duas não mais se viram. Clara saía cedo e
Beatriz ficava trancada em casa, tentando começar seu livro. Mas
algo a bloqueava. Uma noite Beatriz resolveu sair, encontrar uns
amigos para relaxar um pouco. Tinha sido convidada para uma reunião
na casa de sua grande amiga Deca, que lhe prometera um belo
presente.
Chegando lá, a festa já estava no auge, o grupo não era muito
grande. Beatriz passava por escravas aos pés de seus Donos, via
escravos sendo pisados, outros em sessão de spanking, algumas
pessoas apenas conversando. Deca a levou até o outro lado da sala e
lhe apresentou uma bela mulher. Conversaram um pouco e logo lá
estava Beatriz se divertindo com aquele brinquedinho novo que lhe
fora oferecido. Estava muito bom, mas algo dentro dela lhe dizia que
não era ali que ela queria estar. Achou estranho, pois costumava
adorar aquele tipo de festa. De repente, do nada, veio-lhe a imagem
daquela mulher que ela vira na varanda no dia em que se mudou. Foi
então que percebeu que queria aquele olhar outra vez, queria aquele
corpo, queria aquela mulher. Não sabia por quê, mas era o que
queria.
Voltou
para casa, já estava tarde, olhou para a varanda de Clara, mas todas
as luzes estavam apagadas. Beatriz entrou em casa, escreveu um
bilhete, pegou uma chave, colocou tudo dentro de um envelope e, sem
vacilar, deixou na caixa de correio de Clara. No dia seguinte, ao
encontrar o bilhete e a chave, as pernas de Clara bambearam. O
bilhete dizia: “Entre quando tiver certeza de que é isso que quer”.
Foi
numa tarde de sábado que Clara olhou para as escadas e resolveu
subir. Parou em frente à porta de Beatriz, respirou fundo e tocou a
campainha. Aqueles minutos pareciam uma eternidade, ninguém
atendia... Já estava resolvida a dar meia-volta, quando ouviu o
barulho da porta se abrindo. Lá estava Beatriz, parada, sem dizer
nada, apenas olhando para ela. Não a convidava para entrar nem a
mandava embora. Aquele olhar a inibia, mas também a deixava curiosa.
Aquela mulher conseguia estar séria e sorrindo ao mesmo tempo. Havia
nela uma força inexplicável que atraía fortemente Clara. Por fim
Beatriz disse: “Entre”.
Clara
parecia um bichinho assustado, levava nas mãos um bolo e foi logo o
entregando e dizendo: “Eu mesma é que fiz, espero que goste”.
Beatriz agradeceu, pegou o bolo, colocou-o sobre a mesa e, olhando
fixo, nos olhos de Clara disse:
“Já vi
que sua curiosidade é grande. Essa chave que eu lhe dei uma chave
abrirá novos caminhos... Caminhos que só lhe mostrarei quando você
se sentir pronta. Quando você entrar por esta porta sem bater,
estará me dizendo que dali em diante eu te guiarei. Enquanto isso
não acontecer, pode tocar a campainha quantas vezes quiser, pode
perguntar o que quiser, pode me mostrar quem você é de verdade, sem
medo. Jamais quero o seu medo; quero a sua entrega. Estou desde já
mostrando o que desejo de você. Pode sair correndo ou ficar, pode
sair e não voltar nunca mais, pode sair agora e voltar depois, mas
se por acaso um dia você resolver ficar é porque decidiu que seguirá
comigo para onde eu quiser te levar.”
Da boca
de Clara só conseguiu sair: “Eu fico”.
Desse
dia em diante, todas as noites Clara tocava a campainha do
apartamento de Beatriz, entrava e as duas ficavam horas conversando.
Conversavam sobre o que havia acontecido no dia de cada uma, sobre o
livro que finalmente Beatriz tinha conseguido começar, e também
falavam sobre Dominação e submissão. Algumas vezes as duas saíam,
iam ao cinema, ao teatro, jantavam fora. Estava tudo maravilhoso e
não mais falaram da chave.
Um dia,
Clara chegou à casa de Beatriz quando ela estava de saída, já na
porta. Clara perguntou se podia ir junto, porém Beatriz respondeu:
“Não, meu bichinho, hoje não, ainda não está na hora de você ir
comigo para onde estou indo”. E sem nem se virar para um tchau,
sumiu. Aquilo foi como tirar o chão de Clara, foi ali que ela
percebeu o quanto aquela mulher era importante em sua vida. Beatriz
desapareceu por uma semana, mas Clara sabia que ela estava bem
porque no dia seguinte à sua saída, preocupada com seu sumiço, havia
ligado para o celular de Beatriz e ela atendeu dizendo que estava
tudo bem e que voltaria dentro de alguns dias. E não deu mais
detalhes. Clara ligou outras vezes nos dias seguintes, mas aí só
atendia a secretária.
Dias
depois, Beatriz voltou. Clara achou que ela fosse procurá-la, mas
isso não aconteceu. Não agüentando mais de saudade, Clara foi até a
casa dela, sabendo que Beatriz estava lá. Tocou a campainha, mas a
porta não se abriu. Isso aconteceu duas vezes. Então um dia, do alto
de sua varanda, Clara viu Beatriz chegando na entrada do prédio e,
como no primeiro dia, seus olhares se cruzaram intensamente. Clara
foi para dentro de casa, pegou o envelope que Beatriz lhe enviara e
durante umas duas horas ficou olhando para ele e tomando coragem.
Então se decidiu.
Subiu as escadas e parou em frente à porta de Beatriz. Leu mais uma
vez o bilhete, segurou a chave com força e tomou a decisão final.
Até então ela sempre havia temido aquela chave, tinha medo que
depois que entrasse por aquela porta sem tocar a campainha o vínculo
entre elas mudasse e Beatriz passasse a vê-la apenas como mais uma
escrava em sua vida. Clara não suportaria isso, mas ela também não
agüentava mais a indiferença de Beatriz e sabia muito bem o porquê
dela. A decisão de Clara estava tomada. Ali, naquele momento.
Colocou a chave na fechadura e virou.
Clara entrou e viu-se invadida por um silêncio enorme. Ela estava
seguindo em direção ao escritório de Beatriz, quando notou um
bilhete em cima da mesa da sala: “Você resolveu andar pelos meus
domínios, portanto é chegada a hora de te mostrar o caminho. Me
espere aqui, exatamente onde está e como está”. Em seguida, Clara
ouviu a voz de Beatriz: “Então finalmente resolveu se entregar a
mim?”. Quando Clara ia se virar, escutou:
“Não
se vire, eu mandei você ficar exatamente como está. Não pense que
não sei por que você demorou tanto a tomar essa decisão, mas a
partir do momento em que eu decidi, você só tinha duas
opções: devolver a chave ou usá-la. Estou feliz que você tenha
decidido usá-la, porque agora você não terá mais o que temer e o
que existia entre nós só crescerá. Saiba que eu ficaria muito
triste de te perder. Você já sabe como eu sou e do que eu gosto,
já conversamos muito a respeito, mas vou falar mais uma vez, para
que não fique nenhuma dúvida. Daqui em diante, você passa a ser
minha propriedade. Quero saber de todos os seus passos, de todos
os seus pensamentos, as suas vontades passam a ser as minhas
vontades. Quando tiver dúvidas, pergunte. Não gosto de fantoches,
mas exijo respeito e devoção sempre, não por obrigação mas porque
a sua entrega será verdadeira, porque esse será o seu único
desejo. Você terá carinho quando eu assim desejar, será torturada
quando eu assim desejar, terá castigos quando eu achar que merece,
estará sempre à minha disposição porque me pertence e faço com
você o que eu bem desejar, quando desejar e como desejar. Vou
adestrar você e deixá-la perfeita para mim. Alguma pergunta?”
Clara respondeu: “Não... Senhora”.
Beatriz sorriu e se aproximou devagar de Clara. Pensou em tocá-la,
queria sentir aquela que agora lhe pertencia, queria poder dizer o
quanto a amava, mas aquela mulher forte também tinha seus medos e
Beatriz achou que aquele
não era o momento. Então, apenas correu a mão pelos cabelos de
Clara, empurrou-os para o lado e beijou seu pescoço, sussurrando
ao seu ouvido: Confie e entregue-se”. Clara sentiu uma venda
cobrindo seus olhos. Beatriz queria que aquela noite fosse
inesquecível. Quando entrou no prédio no dia em que se mudou para
lá, depois daquele olhar intenso trocado com Clara, já sabia que
Clara viria até ela, e então começou a preparar tudo.
Beatriz foi guiando Clara até o ofurô, tirou sua roupa e a levou
para dentro d’água. Clara, vendada, sentia o perfume da água e
pétalas em sua pele. Onde estaria Beatriz? Mas sentia-se
tranqüila, as palavras que ouvira não saíam de sua mente, “Confie
e entregue-se”.
Alguns minutos depois, Beatriz entrou no ofurô, sentou-se em
frente a Clara, porém afastada dela, e sem dizer uma palavra ficou
ali olhando e admirando sua agora escrava. Elas nunca tinham feito
amor, Beatriz nunca havia permitido porque queria que fosse assim,
exatamente como acontecia agora. Queria tê-la por completo.
Clara, calada, tentando entender o que estava acontecendo, era
envolvida pelo enorme silêncio ao redor, e sua mente fervilhava.
Beatriz aproximou-se dela, abriu suas pernas, passou os dedos em
seu sexo, ajoelhou-se entre suas pernas, aproximou seu corpo do
corpo de Clara e a beijou. Ah, como ela havia desejado aquele
beijo! Enquanto se beijavam, Beatriz retirou a venda de Clara,
olhou bem nos olhos dela e disse: “Eu te amo e agora que você me
pertence te amo ainda mais...”. Então Clara chorou. E naquela hora
o que aconteceu entre as duas foi troca, uma troca dos sentimentos
mais puros que uma pessoa pode ter por outra.
Beatriz amava Clara, adorava lhe dar carinho e vê-la se sentindo
totalmente segura, porque aí é que podia desmontá-la em questão de
segundos. Então em meio àquele romantismo todo, com Clara se
sentindo nas nuvens e depois de muitos gozos, Beatriz
repentinamente se levantou, saiu do ofurô e disse: “Agora venha,
cadela, junto...”.
Clara levou um susto, mas rapidamente se recompôs, saiu do ofurô e
se colocou de quatro ao lado de sua Dona, que já estava com a
coleira e a guia nas mãos. Beatriz colocou a coleira em Clara,
pegou uma toalha e foi secando sua escrava, dando mais atenção às
partes íntimas e dizendo: “Minha cadelinha está toda molhada, não
pode entrar em casa assim, não”. Depois saiu puxando Clara pela
guia para dentro de casa.
E, exaustas, as duas dormiram...
No dia seguinte, um domingo, Clara acordou cedo e saiu da
cama
devagarinho para não acordar Beatriz. Preparou um café-da-manhã
com tudo que sabia que sua Dona gostava, levou para o quarto,
colocou a bandeja na cama e ficou ajoelhada no chão, com o queixo
apoiado nos braços cruzados sobre a cama, olhando Beatriz dormir e
pensando em tudo que havia acontecido na noite anterior. Estava se
sentindo extremamente feliz. Beatriz acordou algum tempo depois e
logo viu Clara ali velando seu sono e a bandeja na cama. Ela
também estava muito feliz. Mandou Clara subir na cama e as duas
tomaram aquele belo café-da-manhã, conversando sobre a noite que
haviam tido.
O
telefone tocou, Beatriz atendeu e, após desligar, disse que
precisava sair. Clara pensou em perguntar se podia ir com ela, mas
não disse nada. Beatriz mandou Clara preparar sua roupa enquanto
ela tomava um banho. Clara conhecia bem o jeito de sua Dona se
vestir e logo separou a roupa certa. Beatriz se arrumou, mandou
Clara acertar seu relógio pelo dela, deu um beijo em Clara, disse
para ela aguardá-la e saiu sem dizer para onde ia. Sozinha ali,
Clara arrumou o quarto e resolveu preparar um almoço mesmo sem
saber se sua Dona viria.
O
tempo foi passando e cada vez que o telefone tocava o coração de
Clara disparava, pensando que fosse Beatriz. Mas eram só recados
para ela, que Clara ia anotando para sua Dona. Como já era quase
noite e Beatriz não ligava, Clara resolveu dar um pulo ao seu
apartamento para molhar suas plantas. Quando voltou, encontrou um
recado na secretária: “Cadê você, cadela? Não mandei me esperar?
Por que não me obedeceu?”. Clic. Clara ficou desesperada e pensou:
“Ai, a famosa lei de Murphy... E agora o que eu faço? Ligo de
volta? Ela parece que está uma fera...”. Quando resolveu ligar, o
interfone tocou. Era uma entrega para ela. Um vestido lindo,
acompanhado de um bilhete: “Esteja pronta na porta do prédio,
exatamente às nove da noite”. Clara tentou ligar para Beatriz, a
fim de explicar o que havia acontecido, mas como só dava caixa
postal acabou deixando um recado. Explicou que havia ficado o dia
todo esperando por ela e que só havia saído um pouquinho, naquele
minuto, para molhar as plantas em seu apartamento. Pediu perdão
por seu erro, desligou e foi tomar banho. Quando faltava um minuto
para as nove, Clara desceu. E exatamente às nove horas ela saiu do
prédio.
Beatriz estava num restaurante próximo, de onde podia ver
perfeitamente a portaria de seu prédio. Olhou o relógio, nove
horas em ponto. Continuou tomando sua taça de vinho com calma, o
lugar era estratégico e dali podia ver perfeitamente sua submissa
andando inquieta de lá para cá, olhando toda hora para o relógio.
Beatriz pensou: “Nossa, como ela está linda!”.
Quinze minutos depois, Clara viu surgir o carro de Beatriz. Deu um
sorriso imenso e, quando abriu a porta, não foi Beatriz quem
encontrou ao volante. O sorriso sumiu imediatamente do rosto de
Clara, ela ficou sem ação, não sabia o que fazer, o que dizer.
Quem dirigia era Deca, a quem Clara não conhecia. Deca lhe disse:
“Vai ficar parada aí? Entra logo”. Clara não sabia o que fazer, o
carro era de sua Dona, mas quem era aquela mulher? Continuou
parada ali, sem ação. Então Deca insistiu: “Acho melhor você
entrar logo, senão a coisa vai ficar feia pro seu lado”. Clara
então entrou no carro. Beatriz, dirigindo o carro de Deca, seguiu
logo atrás delas.
Deca quebrou o silêncio e disse:
“Vamos a uma festa, sua Dona está muito brava com você e por isso
acha que você não merece a companhia dela hoje. Mas como sou muito
amiga dela, sabendo que eu precisava de uma escrava para essa
festa, resolveu deixá-la aos meus cuidados. Quem sabe você fazendo
tudo direitinho como eu gosto ela não te perdoa?”.
“Sim, Senhora”, respondeu Clara toda encolhida no banco e olhando
para a frente sem nem piscar.
Chegaram à festa...
Era
uma chácara, logo na entrada percebia-se que se tratava de um
baile de máscaras, alguns carros estacionados, pessoas andando
mascaradas conversavam. Deca pôs uma máscara e entregou outra à
Clara. Depois colocou uma coleira no pescoço dela e saiu puxando-a
pela guia, percorrendo um caminho iluminado por tochas que levava
direto a uma escadaria. Era uma casa muito bonita, toda de pedra e
madeira. Passaram por dois homens enormes parados em cada lado da
escadaria e vestidos com roupas de carrasco. As pernas de Clara
estavam bambas e ela subiu as escadas apoiando-se no corrimão.
Lá dentro, foi apresentada a algumas pessoas, que a olharam da
cabeça aos pés. Deca a levou até uma Senhora sentada em uma
espécie de trono. Vestia um manto lindo, todo vermelho, sobre uma
roupa colada ao corpo, uma bota preta maravilhosa com um salto
superfino e grande. Deca puxou a guia para baixo e Clara ficou de
joelhos diante daquela mulher e, quando percebeu, estava de cabeça
baixa.
“Esta é a escrava de Beatriz, caríssima Senhora”, disse Deca.
A Senhora jogou o corpo para a frente, colocou as mãos no queixo
de Clara e levantou sua cabeça. Olhando bem nos olhos dela, disse:
“Já ouvi falar muito de você. Tinha muita curiosidade de
conhecê-la, pequena menina”. A voz daquela mulher era suave mas
segura, seu olhar firme, e de repente todo o medo que Clara estava
sentindo passou. A Rainha continuou: “Tenho certeza de que amanhã
você sairá daqui uma nova mulher, percorrerá caminhos nunca
vistos, e se Beatriz a escolheu você sem dúvida não a
decepcionará”. Em seguida dirigiu-se a Deca: “Vá, leve-a e
divirta-se”.
Clara sentiu a guia sendo puxada e levantou-se. As duas entraram
em um salão onde havia várias cadeiras, muitos tapetes e almofadas
espalhadas pelo chão. Nos cantos, alguns sofás, velas por todos os
lugares e, nas paredes de pedra, janelas enormes, dando ao
ambiente um ar medieval. Correntes pendiam das paredes e
descansavam no chão. Vários aparelhos estavam espalhados pelo
salão, entre eles cavaletes, X, jaulas, chicotes pendurados nas
paredes, algemas, cordas, uma infinidade de instrumentos,
inclusive alguns que Clara nunca tinha visto. Lá fora, uma lua
cheia, linda, clareava tudo. Uma música suave tocava, alguns
homens e mulheres estavam acomodados nos sofás, outros em pé,
todos os homens vestiam terno, alguns tendo por cima um manto com
capuz, e usavam máscaras cobrindo o rosto. A maioria das mulheres,
belíssimas, estavam vestidas de preto. Todos fumavam, conversavam,
riam. Clara não conseguiu identificar nenhum submisso ou submissa
na sala.
De repente, surgiram duas mulheres, usando apenas uma veste branca
e transparente sobre o corpo. Elas ladearam Clara, pegaram-na pela
mão e a levaram dali sem nada dizer. Clara lançou um olhar
desamparado para Deca, mas ela lhe fez um sinal para que fosse com
elas, e a última coisa que Clara viu quando olhou para trás foi
Deca sentando-se ao lado de um homem com um manto roxo. Clara e as
duas mulheres desceram uma escadaria. O local era úmido e frio.
Numa espécie de porão, estavam os subs e as subs, todos vestidos
com o mesmo tipo de roupa das escravas que tinham ido buscá-la, as
mulheres de amarelo e os homens de um azul meio escuro, mas todas
as roupas tinham alguma transparência, o que deixava o corpo todo
à mostra. Devia haver cerca de trinta submissos, homens e
mulheres, espalhados naquela sala onde a única claridade eram as
luzes das velas. Ninguém falava nada, o silêncio era enorme. As
duas escravas tiraram o vestido de Clara, a máscara, os sapatos,
suas jóias e colocaram sobre ela uma veste amarela, deixando-a
igual às demais mulheres. Empurraram Clara em direção à parede e
agora ela era ali apenas mais uma submissa entre aquela multidão
de submissos uniformizados.
A seguir, surgiu um dos homens de terno. Ele andou pela sala,
observou todas as submissas, parou em frente de uma delas e a
escolheu. Colocou uma guia em seu pescoço, apontou para o chão e
ela saiu dali andando de quatro. Durante mais ou menos trinta
minutos, essa cena se repetiu: um homem ou uma mulher entrava,
escolhia uma submissa ou um submisso e saía levando seu troféu; ao
mesmo tempo, outras subs iam chegando, tendo suas roupas trocadas
e ficando ali encostadas na parede, à espera da sua vez. Quando um
dos subs era escolhido e resistia, recebia imediatamente algumas
chicotadas e era levado à força.
Em dado momento, entrou o homem do manto roxo, com a máscara que
cobria todo o seu rosto. Ele levava um chicote na mão e andava
pela sala bem devagar. Clara sentiu que sua hora havia chegado. De
repente ele parou na frente dela, bateu com o cabo do chicote de
leve em seu ombro e, sem nada dizer, saiu. Clara o seguiu. Ela só
pensava no que havia feito de tão grave para merecer aquilo,
primeiro sua Dona a entregara para uma amiga que ela nunca tinha
visto e agora via-se nas mãos de um homem. Estava com medo, com
muito medo, tinha vontade de chorar, mas só uma frase vinha a sua
cabeça: “Confie e entregue-se”. E assim ela fez.
Quando voltou ao salão, viu Deca levantando-se para ir escolher
seu submisso. Ao passar por Clara, disse ao seu ouvido: “Você está
em boas mãos, chame-o de Senhor Mysterius, seja obediente e tudo
dará certo. Nenhuma outra mulher irá tocá-la, você está sob os
meus cuidados e ele sabe disso. Então, sempre que sentir uma mão
feminina, saiba que é a minha”. Deca olhou para aquele homem que
agora estava no comando, acenou com a cabeça e desceu as escadas.
Senhor Mysterius, que realmente era um mistério, porque até então
não tinha dito uma palavra, continuou andando, com Clara atrás
dele. Apontou com o chicote para uma almofada e Clara se sentou
ali. Caminhou então em volta de Clara e, na segunda volta, parou
atrás dela. Colocou uma venda em seus olhos e disse: “Sei que
vendas te deixam meio atordoada, mas é assim que você vai ficar
por um tempo”. Sua voz era grave, muito bonita. “Muito prazer, meu
nome é Mysterius. Como já deu para notar, adoro um mistério e falo
pouco, mas costumo agir muito, então esta noite você irá trabalhar
bastante. Vou dizer agora tudo o que é importante e depois você
praticamente não escutará mais a minha voz.” E ele falou por mais
ou menos dez minutos. Ao término, perguntou: “Alguma dúvida?”.
“Não, Senhor”, respondeu Clara. A seguir,
sentiu uma mão usando luvas tocar suas mãos e assim ele a levantou
e a guiou pela sala. Colocou-a de joelhos num local onde o chão
era muito áspero, os joelhos de Clara doeram demais. Retirou as
vestes dela, sua coleira e colocou outra mais grossa e pesada e
com uma argola. Passou uma corrente pela argola e foi puxando.
Clara sentiu sua cabeça ir de encontro ao chão gelado, num trecho
do piso que não era áspero, o que a deixava de bunda para cima.
Era uma posição incômoda e seus joelhos ardiam. Sentiu caneleiras
sendo colocadas em seus tornozelos e suas pernas sendo forçadas a
abrir. Ficou totalmente exposta. Não sabia se tinha muita gente
olhando, sentia vergonha. Onde estava sua Dona, por que ela não a
tirava dali? Mas ela tinha que se acalmar, não dava para fugir, a
noite estava só começando e parece que ia ser longa... Confie e
entregue-se, confie e entregue-se, não se esqueça nunca disso, ela
pensava o tempo todo.
Sentiu de novo a mão de luvas tocá-la, agora em seu corpo. A mão
percorria suas costas, sua bunda, seu sexo. Clara tentou se
encolher, mas recebeu um tapa tão forte na bunda que voltou à
posição. Por um tempo nada aconteceu, e era exatamente quando nada
acontecia, de venda nos olhos, que Clara começava a ficar sem
rumo, porque várias coisas passavam pela sua cabeça. Por que
estava tudo tão parado? As músicas que tocavam agora eram mais
agitadas do que as que ela ouvira quando chegaram à festa, e com o
som assim alto ela não conseguia ouvir se havia alguém falando por
perto. Ficou ali naquela posição, aguardando o que estava por vir.
Sentiu uma mão suave passando em sua bunda, parecia a mão de uma
mulher, e depois unhas sendo cravadas em sua pele, o que ardia
muito. Era Deca, só podia ser, o que a deixou um pouco mais
aliviada, pois, mesmo não a conhecendo bem, Clara sabia que ela
era amiga de sua Dona e isso a deixava mais tranqüila. As unhas
corriam por suas costas, eram cravadas com força na pele e desciam
arranhando. E então novamente tudo ficou quieto. De repente, Clara
sentiu um pingo de vela nas costas, outro, outro, e mais outro,
até sentir que suas costas estavam cobertas de cera. A cera
escorria pela cintura, pelas pernas, pelos pés, ela já nem sentia
mais arder, e então... slapt, slapt, slapt, e o chicote começou a
cantar sobre ela e só parou depois que toda a cera saiu. Sentiu
uma mão mais pesada acariciando-lhe as costas e ouviu a voz
masculina perguntar: “Está tudo bem, escrava? Estou gostando muito
de você, sabia?”.
“Obrigada”, Senhor Mysterius”, respondeu Clara.
A noite foi transcorrendo, e muitas coisas aconteceram. Clara
passou por instrumentos que nunca tinha visto, foi obrigada a
ficar um bom tempo sobre um cavalete, na ponta dos pés, com as
mãos amarradas para cima presas a uma corrente que pendia do teto
e passava por uma roldana. O mecanismo estava ajustado para dar
folga suficiente para ela poder se sentar no cavalete quando seus
pés se cansavam, mas seus órgãos sexuais não suportavam por muito
tempo aquele contato, aquela pressão, e Clara ficava nesse
revezamento insuportável, ora aliviando os pés, ora aliviando os
lábios vaginais, enquanto o Senhor Mysterius descansava e
conversava um pouco com os amigos.
Um dos acontecimentos mais concorridos da festa foi quando o
Senhor Mysterius e Deca resolveram fazer um shibari com ela e
outra submissa. As duas tiveram seus
corpos amarrados um em frente ao outro e ficaram bem coladas e
abraçadas. Elas tiveram que andar pelo salão assim grudadas por
uns vinte minutos e só foram soltas depois que foram obrigadas a
gozar ali, na frente de todo mundo, usando o corpo uma da outra.
Clara já estava esgotada, às vezes o Senhor Mysterius lhe dava
água numa tijela e a colocava sentada a seus pés para que ela
pudesse descansar um pouco. Ao término da noite, já com poucas
pessoas presentes, veio o auge para Clara. O Senhor Mysterius a
colocou no X e Deca por trás dela disse: “Ele quer que você conte
até vinte e ao término diga que pertence a ele”.
E então ela começou a contar, 1, 2, 3 ... 20. “Eu pertenço à minha
única Dona, Senhora Beatriz, aquela a quem dei a minha vida”.
Deca voltou e disse: “Você está maluca? Ele está uma fera, disse
que não vai parar de chicoteá-la enquanto você não disser que
pertence a ele”.
E Clara respondeu: “Ele pode até me matar, mas não vou falar isso
nunca”.
“Você é quem sabe, mas acho que não vai agüentar, está sabendo, né?
A cada vinte chicotadas ele quer ouvir você dizer a quem pertence
e não vai parar enquanto você não disser que pertence a ele.”
E vieram mais vinte chicotadas, e Clara insistia: “Eu pertenço à
Senhora Beatriz, minha única e amada Dona...”. Outras vinte
chicotadas foram ouvidas. Vin...te... “Eu... per... tenço a...
Beatriz...” Clara já estava perdendo as forças e, quando sua perna
bambeou, não sentiu mais o chicote nas costas, e sim uma mão
suave, um abraço em volta de seu corpo, um beijo no rosto e uma
voz que para ela era a voz mais linda que já tinha ouvido na vida:
“Eu sei que você me pertence, meu amor.”
Clara achou que estivesse delirando, ouvindo a voz de Beatriz.
Clara foi solta do X, virada de frente e levada até uma cadeira
próxima. O Senhor Mysterius tirou o capuz, a máscara, tirou também
o manto roxo, e lá estava ela a sua frente, sua única e amada
Senhora. Clara estivera o tempo todo nas mãos daquela a quem tanto
amava, e Beatriz estava radiante por ver que em nenhum momento
Clara havia cedido. Seria capaz de morrer dizendo que pertencia a
ela, e aquilo foi a maior prova de sua entrega e amor. Levou Clara
para tomar um banho, passou curativo em suas feridas e depois
foram para um dos quartos da casa conversar um pouco, quando então
Beatriz aproveitou para explicar tudo o que havia acontecido:
“Quando o Senhor Mysterius precisava falar com você, um amigo meu
falava em meu lugar. As mãos com luvas, assim como as mãos
femininas, sempre foram as minhas e as masculinas a do meu amigo,
que só tocava em pontos que eu permitia.”
Clara estava muito cansada, seu corpo doía e só teve forças para
dizer com uma voz muito fraca, quase sumindo: “Eu te amo muito,
minha Senhora”, e depois disso dormiu. Beatriz a abraçou e, já com
Clara adormecida, respondeu: “Eu também te amo muito, meu
bichinho. E assim, abraçada a ela, Beatriz também dormiu.
Clara olhou o calendário e pensou: Nossa, como o tempo passa
rápido! Há um ano eu estava colocando aquela chave na fechadura e
mudando totalmente a minha vida”.
Nesse período, Beatriz muitas vezes levou Clara das lágrimas ao
sorriso, ou do sorriso às lágrimas, em fração de segundos, e
Beatriz, por sua vez, recebeu de Clara toda a devoção e amor,
compreensão e confiança. A cumplicidade entre elas era perfeita
tanto como namoradas, quando tinham que ser namoradas, quanto como
Domme e submissa. Muitas vezes ficavam só namorando, deitadas na
rede, com Beatriz lendo para Clara partes de seu livro e pedindo
sua opinião. Muitas vezes também saíam juntas à procura de temas
que pudessem servir de inspiração para o livro. Iam para a rua
olhar as pessoas, iam visitar orfanatos, asilos, e lá ficavam
conversando com todos. Viajavam, saíam com os amigos, enfim,
levavam um vida normal. Beatriz estava terminando de escrever seu
livro, em pouco tempo ele seria publicado. Era um romance, mas na
história não havia menção nenhuma à prática do BDSM. Outras vezes,
as duas tinham sessões maravilhosas pela casa toda ou então na
casa de amigos, ou na chácara esplêndida daquela Senhora.
Clara
pensou: O que será que vai acontecer hoje? É nosso aniversário de
um ano, será que Beatriz vai lembrar? Beatriz é meio desligada com
datas... Será que devo lembrá-la? Não, não, melhor não.
Mesmo assim, depois do trabalho comprou flores e um presente para
Beatriz. Ela adorava dar flores a Beatriz, então não ia parecer
que estava tentando lembrá-la de alguma coisa. Ao chegar da rua,
foi direto à casa de Beatriz, como sempre fazia. Elas ainda não
moravam juntas, mas Clara praticamente já morava no andar de cima,
porque não saía de lá. Ajoelhou-se diante de sua Dona, como sempre
fazia ao se encontrarem, beijou seus pés e entregou-lhe as flores
e o presente. Beatriz adorou, eram dois cordões de prata, um com
um pequeno cadeado e o outro com sua respectiva chave, também de
prata. Eram bem delicados e bonitos. Beatriz imediatamente colocou
o cordão com a chave em seu pescoço e o cordão com o cadeado no
pescoço de Clara, levantou-a e lhe deu um longo abraço e um beijo
demorado. Então disse: “Quero que vá para casa agora, se arrume e
volte às oito horas”. Clara pensou: Ela lembrou...
“Sim, Senhora”, respondeu Clara e saiu.
Na hora marcada, voltou ao apartamento de Beatriz. Uma mesa de
jantar linda estava preparada. O rosto de Clara não escondia a
felicidade. Beatriz apareceu, linda, num vestido maravilhoso,
trazendo ao pescoço a chave que abria o cadeado que pendia do
cordão de Clara. Beatriz deu-lhe um belo sorriso e disse: “Você
está linda, meu amor”. Pegou um vinho, abriu e, quando estavam
tomando o vinho e conversando, a campainha tocou. Beatriz mandou
Clara abrir a porta. Uma mulher que ela nunca tinha visto estava
parada na porta. Clara olhou para Beatriz, que se levantou e foi
receber a mulher. Clara foi apresentada à estranha. O nome dela
era Victória. Beatriz olhou para Clara e disse: “Vá até o quarto.
Tem um presente pra você lá, quero que o use agora”.
Depois de um tempo, Clara voltou para a sala meio constrangida,
vestindo um uniforme de empregada. Enormes saltos sobre os quais
ela mal conseguia andar e duas tornozeleiras completavam o traje.
Victória e Beatriz saboreavam o vinho que era de Clara e Beatriz,
sentadas no sofá da sala. Beatriz disse a Victória: “Até que enfim
minha empregada chegou, que demora!”. E dirigindo-se a Clara:
“Anda, venha nos servir, não vê que nossos copos estão quase
vazios? E depois traga uns canapés”. Clara serviu o vinho e saiu
em direção à cozinha. Quando voltou, encontrou Beatriz e Victória
aos beijos. Clara praticamente congelou, ali, diante daquela cena.
Quando o beijo terminou, Beatriz olhou para Clara e disse: “O que
você está fazendo parada aí? Traga logo esses canapés e volte para
a cozinha. Quando precisar eu chamo”. Quando Clara estava voltando
para a cozinha, Beatriz completou: “E não vá tentar nos espiar. Eu
te conheço muito bem, sei como você é curiosa”. Clara foi para a
cozinha e começou a chorar compulsivamente. Tentou se acalmar,
lavou o rosto e ficou ali sentada e angustiada por não saber o que
estava acontecendo na sala.
Um sino tocou e a ordem para servir o jantar foi dada. Correntes
foram colocadas, prendendo as duas tornozeleiras de Clara. Ela
serviu as duas andando com dificuldade, mas fez tudo certinho.
Quando estava saindo da sala, recebeu a ordem de voltar e se
sentar no chão ao pés de sua Dona, com a cabeça em suas coxas.
Betriz e Victória jantavam e conversavam animadamente. Depois do
jantar, as amigas foram para a parte externa do apartamento.
Beatriz morava em uma cobertura, e lá havia uma área grande, onde
ficavam o ofurô, a churrasqueira e muitas plantas. Clara foi
buscar outra garrafa de vinho e, depois de encher o copo das duas,
recebeu uma nova ordem de Beatriz, para que se pusesse mais uma
vez a seus pés, com a cabeça apoiada em sua coxa. E ali ela
presenciou mais beijos, risadas, carícias e uma conversa bem
animada entre as duas. Para ela, sobrava apenas um carinho na
cabeça de vez em quando — e olhe lá! — e continuar servindo vinho.
Algum tempo depois, Beatriz disse: “Cadela, não vou mais precisar
de você hoje. Pode ir para casa”. E entregou-lhe a chave da
corrente da tornozeleira. Clara libertou seus tornozelos,
levantou-se, deu boa-noite para a visitante, beijou os pés de sua
Dona e disse: “Boa noite, minha amada Senhora”. Mas quando virou
as costas, começou a chorar novamente.
Clara não conseguia dormir. A certa altura da madrugada, escutou
vozes embaixo do prédio, olhou o relógio, eram 2h25. Sem acender
as luzes, olhou por trás da cortina e viu sua Dona e Victória
saindo do prédio, entrando no carro e sumindo pela noite. Voltou
para cama e chorou tanto que acabou dormindo.
No dia seguinte, uma sexta-feira, Clara saiu arrasada para
trabalhar. Como fazia todos os dias, foi até a casa de sua Dona
antes de deixar o prédio, mas não a encontrou. O dia passou e nem
um telefonema de Beatriz. Ela também resolveu não ligar, não tinha
forças. Estava muito triste e mergulhou no trabalho para esquecer
tudo. Quase na hora de ir embora, seu celular tocou... Ela atendeu
sem olhar quem estava ligando. “Alô”, disse. “Isso é jeito de
atender a sua Dona?”, reclamou Beatriz. Clara rapidamente pediu
perdão, disse que estava com um problema no trabalho, mas logo foi
interrompida. “Quero que você venha agora para a chácara de Rainha
Elizabeth. Traga seu uniforme, vai precisar dele hoje de novo. Não
demore. Beijo.” E desligou. Clara pensou: “Nem me recuperei de
ontem e já vou ter que virar empregada outra vez? Será que aquela
mulher estará lá de novo?”. Naquele um ano de relacionamento
delas, Beatriz nunca tinha ficado com outra mulher. Será que não
gostava mais dela?
Clara passou em casa, tomou um banho, se arrumou, pegou o uniforme
e foi para a chácara. Como sempre, havia alguns carros
estacionados, mas não se via ninguém do lado de fora da casa. A
casa estava toda iluminada, com certeza mais uma festa ia
acontecer ali. As festas na chácara da Rainha Elizabeth ocorriam
raramente, mas se prolongavam pelo fim de semana todo. Clara
sempre saía dali supercansada, mas adorava aquelas festas. Hoje,
porém, ela estava diferente, se sentia triste. O fato de Beatriz
não se lembrar do aniversário de um ano delas e ainda ficar com
outra mulher na sua frente havia mexido demais com ela. As portas
da chácara em dias de festas permaneciam sempre abertas. Apenas
pessoas convidadas entravam. Os convites eram entregues sempre
pessoalmente, portanto quem estava ali era porque ou havia sido
convidado ou estava acompanhando algum convidado, sendo de
confiança também.
Clara já ia entrando na casa quando as duas escravas da Rainha
Elizabeth não a deixaram passar. Uma delas disse: “Oi, Clara. Por
favor, nos acompanhe”. E as três desceram uma escadaria. Clara foi
levada para outra casa bem menor ali perto, onde só havia subs.
Uma das escravas disse: “Hoje não participaremos da festa na casa
principal, dormiremos todos aqui”. Uma outra escrava ofereceu suco
a Clara. Ela nem se importou ao saber que ia dormir ali, estava
muito desanimada e ia tirar a noite para tentar dormir. Tomou o
suco, e minutos depois estava dormindo, desmaiada, em um
colchonete.
As escravas da Rainha Elizabeth acordaram Clara no dia seguinte.
Não havia mais nenhum sub lá, apenas ela e as outras duas. Em
todas as festas, os subs recebiam uma veste apropriada, sempre
transparente, o que não havia acontecido na noite anterior. Clara
ainda vestia suas roupas. As escravas, sem nada dizer, trocaram
sua roupa, só que desta vez por trajes de cor branca. Saíram da
casa, colocaram-na numa charrete e foram até uma cachoeira. Não
havia outros subs lá, nem Dommes, nem Dons, apenas as três. As
submissas eram proibidas de conversar entre si, quando falavam
alguma coisa era porque haviam recebido ordens para isso, então o
normal era trabalharem em total silêncio.
Mais uma vez Clara se viu completamente nua e levada para um banho
naquelas águas supergeladas. Após o banho, voltaram a vesti-la e
seus cabelos foram penteados com cuidado. Uma coroa de rosas
brancas muito bonita foi colocada em sua cabeça. As três voltaram
a subir na charrete e então percorreram uma estrada de chão linda,
com ipês roxos e amarelos dos dois lados do caminho. Aquele banho
revigorante e aquele lugar tiraram, num sopro, toda a tristeza que
havia dentro de Clara. Ela se sentia bem mais leve agora. Chegaram
a um lugar maravilhoso, uma planície verdinha. Um pouco mais
distante, viam-se muitas árvores. Um riacho com águas cristalinas
fazia seu caminho suavemente por aquele lugar paradisíaco,
provavelmente continuação da cachoeira onde havia se banhado. O
barulho da água era delicioso. Outras charretes e cavalos
encontravam-se ali. Clara olhou em direção às árvores e viu uma
tenda branca e um grupo de pessoas. As três desceram da charrete e
as subs lhe indicaram o caminho, posicionando-se ao lado dela.
O dia estava lindo, o céu superazul, o sol aquecia a pele, mas não
estava muito quente, uma brisa suave fazia sua roupa branca e as
roupas azuis de suas acompanhantes balançarem com leveza. Andaram
em direção à tenda. Clara estava amando sentir a terra e a grama
sob os pés. Quando se aproximaram, logo viu Beatriz em pé ao lado
da Rainha Elizabeth, sentada em seu famoso trono dentro da tenda.
Viu também, entre as muitas pessoas que ali estavam, Victória, que
abraçava pela cintura uma escrava portando uma coleira com as
iniciais RV. O local estava todo florido. As pessoas que estavam
conversando se calaram para observar a chegada das três. Vários
subs vestidos de azul estavam sentados sobre o calcanhar, com as
mãos apoiadas nas coxas, formando o corredor por onde Clara
passou. As duas escravas seguraram suas mãos e colocaram Clara de
joelhos à frente de Beatriz e da Rainha Elizabeth.
Então a Rainha Elizabeth levantou-se e disse: “Inicia-se agora a
cerimônia de encoleiramento de Clara, propriedade e única mulher
de nossa querida amiga Beatriz”.
E mais uma vez as lágrimas correram pelo rosto de Clara.
Beatriz
ficou diante de Clara (que permanecia de joelhos), um degrau
acima. Tinha nas mãos uma coleira muito diferente. Era mais fina e
de ferro polido e, embora fosse de ferro, era muito bonita. No
centro, havia a letra A, também de ferro e bem visível, por
ultrapassar a largura da coleira.
“Clara”, disse Beatriz levantando o
rosto de Clara, para que ela olhasse nos olhos de sua Dona. “Você
sabe como é difícil conquistar a minha coleira. Mas você fez por
merecer. Hoje lhe dou esta sua primeira coleira, de ferro, tendo
certeza de que um dia colocarei em seu pescoço uma coleira de
ouro.” Olhou para as pessoas em volta e disse: “Até hoje eu nunca
pensei em adotar um nome exclusivo para o BDSM, sempre fui chamada
por meu nome verdadeiro, mas hoje está sendo um dia realmente
muito especial na minha vida. Então hoje...”, e voltou a olhar
para Clara, que não tirava os olhos marejados de sua Dona, “...
não só te batizarei como batizarei a mim também. Passo a me chamar
Domme Agnes e você, minha fiel escrava, passa a se chamar susan
d’Agnes.”Beatrizcolocou a coleira no pescoço de Clara, que a partir de
então passou a se chamar susan d’Agnes, e a fechou com um pequeno
cadeado. susan disse algumas palavras de agradecimento, jurando
sua fidelidade e devoção. Dando continuidade à cerimônia, a Rainha
Elizabeth leu o contrato de escravidão consentida, onde as partes
assinaram.
Beatriz, agora Agnes, pediu a
palavra. Primeiro agradeceu a Deca, Victória e à Rainha Elizabeth
por ajudá-la nos vários dias de organização daquele evento,
inclusive em toda a madrugada de sexta-feira. Agradeceu ainda a
Victória, por também tê-la ajudado a despistar susan. “Foi melhor
deixá-la triste do que desconfiada do que estava para acontecer”,
disse Agnes, rindo muito. Depois, agradeceu a todos os presentes,
disse que estava se sentindo muito feliz e que tinha certeza de
que sua escrava também se sentia assim.
“Hoje é um dia muito especial para
nós duas. Há exatamente um ano susan d’Agnes resolveu se entregar
a mim. Foram muitas as provações pelas quais eu a fiz passar, mas
jamais precisei chamar sua atenção, nunca brigamos. Ela cresceu
dia após dia e jamais desistiu. Não tenho medo de dizer o quanto a
amo não só como escrava mas também como amiga, como parceira, como
amante, como minha mulher. A partir de hoje começamos uma nova
etapa de nossa vida, nem mais leve nem mais pesada; apenas mais
prazerosa. Se estamos aqui hoje é porque sempre existiu
cumplicidade entre nós, consideração, e sempre soubemos respeitar
a posição que temos na relação, não deixando jamais que ela caísse
na monotonia. Tenho certeza que daqui para a frente novos
aprendizados virão e que sempre cresceremos juntas. Para
finalizar, e antes de voltarmos para a nossa festa na chácara,
gostaria, diante de todos vocês, de oferecer um presente para a
minha escrava, pelo nosso aniversário.”
Agnes chamou um rapaz que portava
uma malinha. Virou-se para susan d’Agnes e tirou sua veste,
deixando-a apenas de coleira. As escravas que a haviam acompanhado
em toda a cerimônia trouxeram uma maca e Agnes mandou que susan se
deitasse de bruços. E um A começou a ser tatuado bem acima de seu
rego.
Ao término da cerimônia de tatuagem,
alguns convidados ainda ficaram por ali curtindo aquele dia lindo,
tomando banho no riacho, outros se embrenharam no bosque com seus
subs e outros pegaram cavalos e charretes e regressaram à chácara.
Agnes e susan voltaram para a cachoeira de charrete, para
comemorarem a sós, e ali susan d’Agnes recebeu outro presente:
diante de seus olhos, viu um par de alianças, acompanhado da
pergunta: “Você quer morar comigo?”.
E a festa rolou solta até a noite de
domingo.
Agnes chegou em casa correndo,
radiante, gritando por susan (depois da cerimônia de
encoleiramento, elas combinaram nunca mais se chamar por seus
verdadeiros nomes, para que pudessem acostumar com a mudança com
mais facilidade). susan saiu da cozinha correndo, doida para saber
o que tinha acontecido. Escondendo as mãos atrás do corpo, Agnes
disse: “Adivinha o que eu tenho aqui?”. susan fez cara de quem não
fazia idéia. Agnes mostrou uma garrafa de champanhe numa mão e na
outra... seu livro recém-publicado! susan arregalou os olhos e as
duas saíram pulando pela sala abraçadas. susan pegou o livro,
folheou e disse: “Ele ficou lindo!”. Em uma semana seria a noite
de autógrafos. susan viu sua Dona tão feliz que na hora resolveu
presenteá-la com algo que Agnes sempre desejou fazer, mas que até
então era um limite intransponível para sua escrava. susan d’Agnes
foi até o quarto e pegou todo o material necessário para uma
sessão com agulhas. Agnes, que naquele dia achava ser impossível
ficar mais feliz, viu como susan ainda tinha a enorme capacidade
de surpreendê-la sempre.
O lançamento do livro foi um
sucesso. A sala de eventos preparada para a noite de autógrafos
estava lotada. Foi uma noite incrível. O livro recebeu uma crítica
muito boa, o que logo levou Agnes a ser convidada para escrever um
novo livro. Mas ela queria tocar um projeto diferente: escrever um
livro com temática BDSM.
susan d’Agnes era publicitária e sua
agência havia havia ganho a concorrência de uma campanha enorme. O
novo projeto estava ocupando muito de seu tempo, todas as noites
ela chegava tarde em casa e no dia seguinte saía cedo. A
princípio, Agnes mostrou-se compreensiva, mas, passados seis meses
dessa correria, Agnes começou a reclamar. Ela também andava meio
estressada, porque seu editor fizera uma pressão tão grande sobre
ela que Agnes viu-se obrigada a largar seu projeto de um livro
BDSMista para iniciar um novo livro encomendado pela editora.
Estava desanimada com tudo que estava acontecendo e acabava
descontando em sua escrava. susan, por sua vez, com toda a
paciência do mundo, se desdobrava para agradá-la e atendê-la mesmo
quando estava supercansada. Entendia sua Dona e, como em poucos
dias a campanha publicitária ficaria pronta, pensou em fazer uma
surpresa para ela.
Uma noite, susan d’Agnes chegou em
casa querendo contar algo para Agnes, mas como ela estava de saída
para uma reunião com o editor, não quis parar para ouvir. Quando
voltou, susan já estava dormindo. Agnes tomou um banho e também
foi para a cama.
Quando Agnes acordou na manhã
seguinte, susan não estava a seu lado na cama. Agnes se levantou,
procurou pela casa toda, mas não a encontrou. De repente, viu um
bilhete na mesa: “Minha amada Senhora, recebi um telefonema de meu
pai avisando que minha mãe foi internada. Achei por bem não
acordá-la, mas ligo assim que eu chegar lá. Te amo. Um beijo”.
Agnes ficou preocupada. De repente
se tocou que não estava dando a atenção que sua escrava precisava
e merecia, que estava sendo egoísta, pensando só nos seus próprios
problemas. Amava susan e não havia se dado conta de que, mesmo com
tanta ingratidão, susan sempre havia sido compreensiva, nunca
reclamando de nada. Ligou para o celular de susan, para avisar que
ia se encontrar com ela, para dizer que queria estar com ela nessa
hora, mas ele parecia estar deligado. Tentou outras vezes, e nada.
Pelo tempo que havia passado, susan já devia ter chegado lá. De
repente, o telefone tocou. Um homem do outro lado da linha dizia:
“Um acidente na serra ... um caminhão tombou ... Sinto muito...”.
Agnes viu tudo rodar.
Agnes deu um pulo na cama. Estava
suando e chorando copiosamente. Olhou para o lado e susan não
estava ali. Teve medo de não ter sido só um sonho. Levantou,
procurou susan pela casa... nada. Olhou na mesa, mas não viu
nenhum bilhete ali. Um barulho! Agnes correu em direção à porta e
viu susan entrando em casa com um buquê de flores em uma das mãos,
pães na outra e um sorriso maravilhoso no rosto.
Agnes começou a chorar de novo,
correu e abraçou susan como havia muito tempo não fazia. Pediu
perdão, pediu desculpas, disse que a amava muito e que nunca mais
iria tratá-la com tanta indiferença. susan não entendeu nada, mas,
sempre atenciosa, abraçou sua Dona com força, pedindo que ela se
acalmasse e contasse o que havia acontecido. Agnes contou seu
sonho. susan tentou acalmá-la: “Foi só um sonho...”. Entregou-lhe
as flores e perguntou se sua Dona não queria tomar um banho, Agnes
disse que sim, e susan foi até o quarto preparar a banheira com
uma água bem morninha. Enquanto Agnes se banhava, susan fez o
café-da-manhã de sua Dona. Arrumou a bandeja, colocou nela o
presente que tinha para Agnes e deixou a bandeja na cama. Mais
relaxada após o banho, Agnes estava começando a chamar susan para
tomar o café com ela, quando viu na bandeja as duas passagens
aéreas e um convite para uma temporada no OWK, um grande
território turístico de dominação feminina situado em Praga que
Agnes sempre teve a maior vontade de conhecer. Ela foi ao delírio
ao ver aquilo, seu sonho era conhecer aquele lugar! Começou a
pular sobre a cama como uma criança, até que de repente parou,
desceu, foi buscar seu laptop, levou-o até a cama, ligou-o e
chamou susan d’Agnes para ficar a seu lado. E então começou a
escrever...
Era um prédio de três andares,
estava quente e Clara resolveu ir até a varanda tomar um ar.
Beatriz, por sua vez, estava em frente à entrada do prédio. Estava
se mudando para lá e pensando em como seria sua nova vida. Era
escritora e havia escolhido aquele bairro porque...