8 de Março: A origem revisitada do Dia Internacional da Mulher

sábado, 8 de março de 2014

Autor(a): Míriam Martinho

Testemunha ocular de como movimentos sociais, altamente ideologizados, são capazes de forjar datas de celebração e eventos “históricos”, fiquei obviamente com dois pés atrás no que se refere a todas as datas de comemoração, entre outros, do movimento feminista ou de mulheres. Quem me garante que outras datas não foram também fabricadas como uma que eu vi “nascer”?

Nessas, resolvi revisitar o dia 8 de março, o bem conhecido Dia Internacional da Mulher, data que já foi de luta e hoje se parece mais com o dia das mães, quando as mulheres recebem flores e presentes, por supostas características intrínsecas a todas as mulheres, e descontos em muitos produtos.

E, como desconfiava, fui logo encontrando outra história mal-contada. Essa pelo menos parece ter sido fabricada mais pela simples imaginação, embora não falte igualmente a conotação ideológica, do que por má-fé deliberada como outras. Não esquecendo, contudo, que seu resgate atual já não anda também cheirando muito bem.

A história que sempre me contaram e que inclusive repassei como verídica, nos meus tempos de Jardim do Éden, para a origem do 8 de março, era aquela das operárias que haviam sido queimadas vivas, quando resolveram fazer greve por melhores condições de trabalho, na fábrica onde ralavam, porque seus patrões, burgueses malvados, as trancaram no local e botaram fogo em tudo. Esse trágico evento teria acontecido, em Nova Iorque, no dia 8 de março de 1857. Posteriormente, na II Conferência Internacional das Mulheres Trabalhadoras (ou II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas), em Copenhague, em 1910, a social-democrata Clara Zetkin, em homenagem às pobres costureiras mortas no incêndio, decidiu definir a data da tragédia como Dia Internacional da Mulher. E daí por diante o dia teria tomado o imaginário popular.

Entretanto, tal história não corresponde aos fatos. Na década de 60, durante a chamada segunda onda do feminismo, quando as mulheres lograram produzir um grande movimento de reivindicações várias pela igualdade das mulheres, diferentes correntes do movimento feminista e de mulheres decidiram trazer de volta a ideia antiga, do início do século passado, de um dia internacional das mulheres. Parece que ninguém se deu ao trabalho, porém, de fazer uma pesquisa mais séria sobre as origens do dia referido, e o resultado foi uma espécie de “samba da crioula doida feminista” que misturou datas e eventos desconexos no tempo para produzir a história que ganhou às ruas e acabou até institucionalizada.

Corpos das mulheres que se atiraram do prédio em chamas em 25/03/1911

Recentemente, algumas pesquisadoras andaram se debruçando sobre a história, aquela com H maiúsculo geralmente tão vilipendiada, e descobriram, primeiro, que não houve um incêndio, em 8 de março de 1857, em um protesto de mulheres contra os donos da fábrica que reagiram de forma criminosa. O incêndio de fato ocorreu em 25 de março de 1911, numa fábrica de vestuário, em Nova Iorque, chamada Triangle Shirtwaist Factory (Companhia de Blusas Triângulo), em razão das péssimas condições de segurança do local. Nele morreram 146 pessoas (125 mulheres e 21 homens), a maioria das moças, imigrantes judias e italianas, que trabalhavam horas a fio em troca de salários de fome. Após a tragédia, que chocou a cidade, houve passeatas de protesto, velórios emocionados, etc. e tal, mas não foi esse o fato que levou ao surgimento da ideia de um dia das mulheres.

Greve de trabalhadoras têxteis que durou de novembro de 1909 a fevereiro de 1910.
20.000 aderiram à greve, que também teve muitas passeatas de protesto, formadas
por uma maioria de mulheres judias.

Essa ideia já havia surgido antes, quando trabalhadoras tomaram às ruas de Nova Iorque, em 1908, 1909 e 1910, para exigir jornadas mais curtas de trabalho, melhores salários e direito ao voto. Em razão dessas manifestações, as norte-americanas estabeleceram o dia 28 de fevereiro de 1909, nos EUA, como Dia Nacional das Mulheres (alguns autores dizem que essa data já foi chamada de Dia Internacional das Mulheres). E foram também as norte-americanas que levaram à II Conferência Internacional das Mulheres Trabalhadoras, em Copenhague, Dinamarca, em 1910, a idéia de se estabelecer o último domingo do mês de fevereiro como  um dia internacional de luta das mulheres. Clara Zetkin, de fato, apenas encaminhou a proposta das americanas, que foi aprovada pela conferência, mas sem uma data unificada de celebração.

Nos anos subsequentes, em diferentes países, como os EUA, a Alemanha, a Áustria, a Suécia e a Rússia, houve manifestações do dia internacional da mulher, variando a data do fim de fevereiro a meados de março, incluindo aí um 23 de fevereiro de 1917 (pelo calendário russo), quando tecelãs fizeram uma greve de protesto, em São Petersburgo, na Rússia, que alguns autores e autoras consideram o estopim do levante que derrubou o Czar do poder.  Em 1921, durante uma Conferência de Mulheres Comunistas, as mesmas também definiram o 23 de fevereiro (que corresponde ao 8 de março de nosso calendário), em referência à greve das tecelãs, como Dia Internacional Comunista das Mulheres, data que passou a ser comemorada localmente.

Depois desses primeiros anos do século XX, com a implantação dos regimes totalitários comunistas nos países do Leste Europeu, com o surgimento também do totalitarismo nazifascista e de todos os conflitos que levaram à Segunda Guerra Mundial, as comemorações de um dia internacional das mulheres desapareceram quase por completo. Somente em meados da década de 50, volta-se a falar em um dia internacional da mulher, em âmbito mundial, aí já misturando as datas e eventos citados acima e acabando por gerar o mito da origem do atual dia internacional a partir da “história” da homenagem às costureiras mortas, no incêndio da fábrica de vestuário (Triangle Factory), “ocorrido” em 8 de março de 1857.

Como citei anteriormente, foi, contudo, apenas na década de 60, novamente nos EUA, com o surgimento da segunda onda do movimento feminista, que o mito da origem do dia internacional da mulher se consagra naquela base da mentira que repetida mil vezes ganha foro de verdade.  Com o crescimento do movimento feminista e a inclusão das reivindicações das mulheres na pauta das sociedades em geral, na década de 70, o mito da origem do dia 8 de março foi inclusive progressivamente se institucionalizando, sendo encampado pelas Nações Unidas, em 1975, e pela UNESCO em 1977. De qualquer forma, apesar dos verdadeiros fatos virem sendo divulgados só recentemente, permanece, como referência do Dia Internacional da Mulher, para algumas, a conferência de 1910, quando o dia foi proposto e, para outras, o dia 19 de março de 1911, quando ocorreu efetivamente a primeira celebração do dia na Alemanha. Ou quem sabe não fosse mais correto tomar, como referência, o dia 28 de fevereiro de 1909 nos EUA?

Forçoso dizer que, para um levantamento mais consistente das datas e eventos que levaram a formulação do mito da origem do dia internacional das mulheres, faz-se necessário um número maior de pesquisas realizadas por pesquisadores idôneos e mais imparciais do ponto de vista ideológico. Hoje, no Brasil, como estamos vivendo uma recidiva de idéias “socialistas”, com as correntes do feminismo na ativa praticamente restritas às vertentes socialistas e radicais (estas também de base marxista), as socialistas deram para dizer que a origem do 8 de março vem das mulheres socialistas, esquecendo das outras contribuidoras. Estão se arrogando esse direito, claro, pelo simples fato de se identificarem como socialistas e estarem puxando a brasa para sua sardinha, como se diz popularmente. Esse sectarismo, aliás, parece ser de raiz, pois, seguindo os ditames da conferência de Copenhague, segundo pesquisei, as socialistas decidiram formar grupos, para a organização do dia internacional das mulheres, só entre si mesmas, sem aliança com as feministas, consideradas burguesas, que, na época, eram representadas pelas sufragistas.

Sufragistas fazem manifestação pelo voto feminino

De fato, embora não se possa deixar de reconhecer a importante participação das mulheres trabalhadoras, nos distintos eventos que acabaram configurando o mito de origem do 8 de março, cumpre salientar que o Dia Internacional da Mulher, que se consagrou internacionalmente, não partiu estritamente da conferência de 1910 nem do evento ocorrido no dia 23 de fevereiro de 1917 (pelo calendário Juliano e 8 de março pelo gregoriano),  na Rússia, durante o levante que derrubou a monarquia e acabaria culminando na revolução bolchevique, mas sim da fabricação de um ”8 de março de 1857” referente a um trágico acidente, supostamente ocorrido em Nova Iorque, que vitimou um centenar de pobres costureiras.  E essa fabricação, que conquistou corações e mentes, é fruto sobretudo dos movimentos feministas oriundos das democracias liberais norte-americanas e europeias, principalmente a norte-americana, a partir da década de sessenta, onde havia liberdade  (e há) para as mulheres não só reivindicarem direitos mas também criar ideologias e mitos feministas (para o bem ou para mal). O 8 de março que se comemora hoje é fruto de um movimento multiclassista, multi-étnico, de diferentes orientações sexuais e multi-ideológico  e não pode ser reduzido a apenas uma de suas facetas. É forçar a barra demais - agora que tantas mulheres de visões ideologicamente distintas já contribuíram para compor o recheio da historinha do “8 de março” - querer separar o joio do trigo e fabricar uma nova “verdadeira” origem da data.

Como praticamente todos os demais movimentos sociais, no Brasil, o movimento feminista ou de mulheres se esqueceu completamente das lutas pela autonomia do movimento e das reivindicações específicas das mulheres, frente às organizações da esquerda autoritária e seu ideário, que consideravam as lutas da mulher uma causa menor, burguesa, nas décadas de 70 e 80, deixando-se hoje cooptar e aparelhar por partidos e ideologias que, como sobejamente provado pela história da humanidade no século XX, somente produziram ruína econômica e ditaduras sangrentas, com milhões de mortos, nos países onde se estabeleceram. A tão propalada justiça social a que levariam nunca aconteceu.

Por isso, embora as comemorações do Dia Internacional da Mulher sejam de todas as mulheres e não de algumas mulheres de uma seita ideológica particular, os 8 de março dos últimos anos vêm também com um travo amargo por se ver um movimento que sempre precisou tanto da liberdade, para existir e se fazer valer, estar aí flertando com o sinistro charme das ditaduras.

Que as mulheres do início do século XX se deixassem encantar pelas promessas falsamente igualitárias do “socialismo-comunismo” é perfeitamente compreensível, pois elas não sabiam o resultado dessas ideologias na prática. Que mulheres do século XXI, com a experiência de todos os regimes totalitários que o comunismo estabeleceu, em todos os lugares onde se instalou, continuem acreditando nessa perigosa quimera – ainda que reeditada com nova roupagem - é realmente incompreensível. Nem preciso dizer que este movimento nem representa a mim, que tenho décadas de luta pelos direitos das mulheres, nem a maioria das mulheres brasileiras que seguramente já se acostumou com os confortos da independência e da democracia e nunca teria como representantes – se pudesse elegê-las – promotoras de projetos autoritários cinicamente chamados de de “direitos humanos”. Aliás, o cinismo parece ser mesmo um apanágio dos totalitários: no dístico do pórtico de entrada do campo de concentração de Auschwitz, preservado em memória das vítimas do nazismo, lê-se, até hoje, “O trabalho liberta.”

Então, neste Dia Internacional da Mulher, precisamos brindar principalmente a nós, mulheres realmente democráticas, que, tantas vezes, lutamos sob a bandeira de nossa maior líder, a Liberdade! Das lutas, na tempestade. Dá que (sempre) ouçamos tua voz!

1.Kandel, Liliane e Picq, Françoise. Le mythe des origines, à propos de la journée internationale des femmes. La Revue d’En face, n° 12, automne 1982

2.A primeira onda feminista se caracteriza sobretudo pela reivindicação do direito ao voto feminino, embora não se resuma a ela, e foi uma luta de fins do século XIX até o pós-guerra (II Guerra Mundial). A segunda onda, a grosso modo, se inicia na década de 60 e vai até a década de 80, caracterizando-se sobretudo pelas demandas por igualdade, em todos os níveis, e a politização das relações pessoais entre homens e mulheres.

3.Mulheres que lutaram pelo voto feminino nos séculos XIX e XX.

Texto reeditado a partir de publicação original postada no site Um Outro Olhar em 8 de março de 2010

5 comentários:

  1. Miriam, na década de 80 li um livro francês - não me recordo o nome, onde constava que o 8 de março, tal como repetimos por anos, nunca existiu. O resgate histórico é um processo coletivo. Enfim...como se chegou a esse conto literário não sei. Salvo engano, ainda, 1857 é a data de nascimento de Clara Zetkin. Talvez se a historiografia fosse um exercício mais amplo, não haveria essa necessidade de construirmos uma história com fatos isolados, migalhas de acontecimentos.

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  2. adorei, ótimo. Parabéns!!!

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  3. Seu vasto levantamento de informações estava indo até bem, até vc usar uma expressão RACISTA e MACHISTA: "um samba da crioula doida"

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    1. "Samba do crioulo doido" é o nome de uma música do Stanislaw Ponte Preta que contava a história de um cara que compôs um enredo de escola de samba fazendo a maior confusão com datas e personagens da história do Brasil. Hoje, quando alguém faz esse confusão parecida, diz-se que faz um samba do ou da qualquer coisa doida. Virou uma expressão popular. Não tem nada a ver com racismo e machismo. Você viajou!

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  4. Tenho um blog e farei um post sobre o Dia Internacional da Mulher.Um professor meu,de Direito,me contou ano passado essa história e resolvi pesquisar.Gostaria muito de utilizar trechos de seu post lá no meu blog.Você autoriza?Claro que colocarei os créditos.
    Belo texto!
    Bjus

    www.anegraeseustons.com.br
    anegraeseustons@gmail.com

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